O PAI DO HOMEM

         O menino abriu o livro; “estamos presos
as nossas memórias, atados aos sentimentos, nossas origens nos seguem feito
sombra, jamais fugiremos de nós mesmos.”, leu para Euzébio.
         A seca se prolongava; sem pastagem o
gado morreu. A plantação não vingou, a fome chegou. O pai chamou o cachorro
Euzébio, tomou o menino pela mão; num saco de pano as poucas roupas. Seguiriam
o curso do riacho agora sem água. “Todos os rios buscam o mar”, disse o homem,
“o riacho é um pequeno rio e também procura o mar, um dia voltaremos”.
         Na vila alagada os sobreviventes
aguardavam por socorro sobre os telhados; o menino abraçava um cão. Euzébio, o
cão, era agora a sua única família. O menino dividiu com Euzébio o pacote de
bolacha; o cão lambeu a mão da criança e esperou junto o resgate, o pai do
menino também se salvou.
         A bala perdida encontrou o alvo; o
homem largou a mão do filho e se deitou contra o muro. Agonizou fitando o rosto
da criança; lágrimas de tristeza banhavam a sua face, só o cão percebeu que o
menino ficaria ao abandono. Lambeu a face do homem numa promessa de que
protegeria o miúdo… O menino virou homem e retornou as origens.
         Na mansão de muitas garagens e
verdejante pomar, a madrasta não se conformava em dividir seu espaço com o
filho do novo marido rico. O menino tinha apenas três anos; o veneno agiu
rápido e o corpo foi jogado na piscina; afogamento! Diriam. O cão permaneceu
vigiando e após o enterro desapareceu, só voltando quando o assassinato foi
descoberto e o homem casou novamente com uma boa mulher que lhe deu novo filho. 
         O menino abraçado à mãe morta pensava
que ela estava dormindo. Estranhou o frio e a cobriu com um cobertor; o cão
seguiu o menino e sentaram-se no alpendre a espera do pai voltar do trabalho na
fazenda.
         O homem chamou os empregados,
distribuiu as tarefas; a fazenda era grande e produtiva. Os trabalhadores
chegavam dos lugares mais longínquos; cada um deles com sua história pessoal,
retirantes nordestinos, sobreviventes de catástrofes, marcados por tragédias e
tristezas. O homem observou o filho entretido na leitura. Seu coração se
enterneceu; lembrou os tempos difíceis, enxugou uma lágrima, “saudades do pai
que jamais conheceu o mar”, pensou. Foi até o canil… Os galgos fizeram uma
grande festa. O homem tomou o velho cão nos braços, “trouxe bolachas! Coma
Euzébio.”… O cachorro lambeu a sua mão e fixou seus olhos, parecia um olhar
de agradecimento; “estamos presos as nossas memórias, atados aos nossos
sentimentos, nossas origens nos seguem feito sombra, jamais fugiremos de nós
mesmos”, pensou o homem… Euzébio partiu silenciosamente… O homem agora
estava só… O menino abraçou o pai que chorava sem consolo; o menino é o pai
do homem… O menino é o pai de todos os homens; devemos amar e educar
corretamente o nosso pai!
Gastão
Ferreira/2014
        

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