O lobisomem da Beira do Valo

         Ano
da Graça de 1890; Dona Belinha estava apavorada. Seu filho, Amâncio Eduardo,
escreveu da capital contando as novidades:- “Oh maínga! Dudu só pode estar
louco! Diz que o homem está tentando voar; está inventando um bicho chamado
aeroplano, meu Bonje! Conta que os cientistas estão para descobrir como fazer
luz, que já conseguiram criar uma máquina de nome bicicleta, uma coisa que vai
longe carregando um homem sem necessidade de andar… Creio que exagerei no
caldinho de manjuba! Dudu pirou de vez.”
         Seu
Eduardo Amâncio, pai de Amâncio Eduardo, pacato e próspero comerciante de secos
& molhados, concordou com a esposa; o filho voltaria imediatamente para a
casa. O menino ainda não completara vinte e um anos, devia obediência ao pai e
alem disso o sonho paterno era que o filho casasse com a bela, a rica e
poderosa Armandina de Una, filha do coronel Astrogildo, grande plantador de
arroz do Peroupava.
         Amâncio
Eduardo chegou de navio; foi recebido pela banda municipal e conduzido ao
casarão paterno são e salvo; as mocinhas suspiravam das janelas à sua passagem
pelas ruas de terras da cidade:- “Dudu está lindo! Dudu tem dinheiro! Dudu
ainda é solteiro… Oh céus!”
         Da
Pedra Quente, o boato se espalhou; um lobisomem atacou Maria das Dores, viúva
de Zé Capina, aquele que se enforcou após ser traído pela esposa… Não! Das
Dores não morreu, mas o bicho-fera fez miséria com a coitada; está um trapo!  
         Maria
das Graças, Maria Madalena, Maria do Rosário, Maria do Céu, Maria Helena, Maria
Antonieta, Maria das Neves… Parece que bicho-lobo tinha um fraco por Marias.
Só atacava donzelas desprotegidas que transitavam altas horas, isso é, depois
do escurecer, pela Beira do Valo. 
         O
senhor delegado descobriu que o lobisomem só atacava garotas vestidas com capas
vermelhas; o estoque de tecido acabou em todas as lojas e virou moda o uso de
mantos encarnados para pequenos passeios noturnos.
         As
vitimas do lobo-homem contavam horrores do que passavam entre as garras da
fera; reviravam os olhos, ficavam arrepiadas, tremiam e suspiravam, fugiam de
pormenores constrangedores quando interrogadas… Não! A fera não beijava. Até
uma donzela tola sabia que um beijo engravidava na hora… Não! Não foram
beijadas.
         Amâncio
Eduardo sentia falta da cidade grande, das meninas de vida fácil, dos bordeis,
das noitadas com os amigos. Estava emagrecendo a olhos vistos, era à hora de
casar e Armandina de Una fora atacada pelo lobisomem e gostara da sacanagem… Beijara
a fera na boca e estava difamada.
         O
coronel Astrogildo ofereceu uma fortuna a quem matasse a fera; a desonra de sua
amada filha não tinha preço; a bela Armandina seria enviada para um convento
das Carmelitas Descalças e jamais sairia da clausura… Amâncio Eduardo viajou
para a capital, o pai de um amigo era o diretor do zoológico estadual; com a
ajuda do amigo roubaram um velho lobo do zoológico e Amâncio voltou para a
pacata cidade. Degolou o lobo e apresentou a cabeça da fera ao coronel
Astrogildo… O coronel nunca tinha visto um lobo na vida; ficou horrorizado
com o aspecto do bicho, louvou a coragem do jovem e pagou o combinado…
Amâncio não quis o dinheiro; confessou que desde guri era apaixonado por
Armandina e pediu sua mão em casamento, mesmo meio comida pelo lobisomem, ainda
a amava. 
         O
casório ocorreu entre sorrisos, olhares marotos, pequenos gestos que denotavam
desdém; à noite no leito nupcial, entre beijos e abraços, Armandina murmurava;
meu lobisomem! Só meu. E foram felizes para sempre.
Gastão Ferreira/2014
        
  

Deixe um comentario

Livro em Destaque

Categorias de Livros

Newsletter

Certifique-se de não perder nada!