Zona Azul

         Em
meio à selva amazônica, numa pequena cidade esquecida por Tupã, Madame Charlene
Mattos Pinto, proprietária e atendente da famosa casa noturna “Mattos Pinto”,
passava por um serio problema; seu bordel estava falindo.
         Quando
Carlota Menor, vulgo Charlotte La Belle, abandonou de mala e cuia o
estabelecimento de Madame Charlene e montou sua própria casa de prostituição em
outra cidade, levou as poucas atrações do muquifo “Mattos Pinto”, a saber; o
sarau erótico, a mais bela piranha, o bloco das vacas e outras efemérides que
chamavam clientes para a casa de tolerância de Madame Charlene.
         A
biscatinha La Belle, não satisfeita em cuspir no prato em que se lambuzou por
tanto tempo, ainda tentou acabar com o puteiro da ex amiga; queria porque queria
levar para seu novo endereço o segundo maior evento do decadente antro de
perdição da ex patroa; o fenomenal “Revelando as santas”, um encontro anual
onde todas as batalhadoras do sexo mostravam o que sabiam fazer de melhor na
sua arte.
         A
briga de foice entre Madame Charlene e La Belle ficou conhecida como o “banzé
das Carlotas” e vai render muitas agulhadas e golpes baixos, pois ainda não
terminou e só vai acabar quando uma matar a outra, ou ambas forem presas por
picaretagem.
         A
verdade nua e crua é que Madame Charlene estava inadimplente; um único evento
mantinha a casa em pé, a grandiosa “Festa de Setembro”, a isca que restara para
atrair clientes de outras cidades e que por sinal estava em franca decadência
devido aos preços exorbitantes cobrados das garotas espertas para montarem seus
quartinhos nos cafundós da zona.
         O
bordel tinha dado o que podia, e, como deu! Muitas meninas de programa se enricaram
a sua custa; muitos gigolôs se deram bem na vida explorando e roubando as
gurias de Madame Charlene, que naqueles bons tempos era chamada pelo gracioso
apelido de “a princesa”.
         Cortava
o coração ver a situação da casa noturna “Mattos Pinto”; paredes sem reboco,
matagal cobrindo a calçada, telhas faltando, pista de dança esburacada, janelas
com vidros quebrados, ratos e baratas disputando restos de alimentos com cães
vadios, oncinhas invadindo o quintal e pulando o muro… O fim da picada. Tia
Charlene, apesar da idade avançada, era um osso duro de roer: – “Quem foi
princesa sempre será majestade!”, dizia.
         Madame
reuniu suas meninas, explicou a situação e foi clara e precisa:- “ Ou arrumamos
um jeito de sair do sufoco, ou, fechamos o puteiro… Vocês decidem!”
         Após
secarem as derradeiras garrafas de champanha e consumirem os últimos vinhos do
Porto, vinhos estes comprados no boteco do Dito Curruíra, no bairro Porto do
Arraial, e, por isso conhecido como Vinhos do Porto, a menina Mimi Graciosa deu
a idéia salvadora; “Vamos mudar a cor da bagaça! Que tal pintar a zona de
azul?”
         E
foi assim que Madame Charlene, proprietária e atendente da casa noturna “Mattos
Pinto”, moradora de uma pequena cidade perdida entre a densa floresta amazônica
e esquecida por Tupã, reconquistou sua clientela. Não se espantem com a nova
propaganda da Tia Charlene, vulgo a princesa: – “Você que adora uma
sacanagem… Venha conhecer a nova e remodelada ZONA AZUL; aos sábados e
domingos apresentando o fabuloso show “as piranhas cantantes”… Proibido para
menores de 18 anos.”
Gastão Ferreira/2015 

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