Homenagem ao Índio

         Quando
o projeto foi aprovado, o povo, o povão e o povinho reclamaram; caramba! Uma
estátua de um índio peladão? R$800.000,00 jogados fora! Faltando tantas coisas
aqui na cidade…
         O
prefeito explicou que a verba era do Senhor Conde Phat; não tenho nada com
isso! O Senhor Conde escolheu pessoalmente o projeto vencedor e já depositou a
grana…
         Os
responsáveis pelo projeto vencedor montaram uma CETUR (Comissão Encarregada de
Trabalhos Urgentes) a fim de agilizar a obra; Dona Nice e seu esposo cantante
assumiram a chefia da começão, digo, comissão.
         Dito
Barro e seu carrinho de mão demoraram exatamente dez dias para retirar e
transportar cinco toneladas de matéria prima e recebeu R$ 150,00 pelo árduo
trabalho.
         Gina
Bambu projetou o arcabouço da estátua em vinte dias e ganhou R$ 500,00 pelo
excelente serviço.
         Milton
Buarque, famoso e festejado escultor, modelou o índio e recebeu o combinado, R$
2.000,00 pelo primoroso acabamento da obra.
         Estava
ali o índio peladão e pronto para ser exibido; três metros de altura, perfeito
e ao custo de R$ 2.650,00. A grana inicial era de R$ 800.000,00; o senhor Conde
Phat ficou com R$ 300.000,00 e só mandou R$ 500.000,00 e a começão, digo,
comissão não reclamou e mostrou ao que veio; reuniu a diretoria para os
finalmente; Nice e esposo, Pedro Taquara, Méri Capivara e vovó lindinha queriam
a sua parte no butim.
         Vovó
Lindinha (Diretora executiva em exercício) bolou uma ridícula tanga de crochê e
tascou na estátua e assinou a nota; R$ 50.000,00
         Pedro
Taquara (Segundo vice-presidente em exercício) catou um bambu de três metros de
comprimento; uma lança para o índio, disse, e, passou um verniz. Assinou o
recibo de R$ 82.350,00.
         Restaram
R$ 365.000,00 em caixa; o marido cantante de Dona Nice compôs um belo arranjo
musical em homenagem ao índio, ex-peladão, cujo refrão era; é o índio… É o
índio e é o índio (não confundir com a belíssima letra de; é o boi… É o boi e
é o boi.) e assinou e recebeu R$ 50.000,00.
         Maria
Capivara (Diretora de eventos em exercício) arrancou a última pena de seu louro
de estimação, o papagaio Pinhé, e, fincou na cabeça da estátua, assinando e
recebendo R$ 50.000,00 pela trabalheira.
        
“Acabou a grana”, avisou Dona Nice.
        
“E você mor! Não vai ganhar nada? Afinal é você a idealizadora do projeto
vencedor…
        
“Já ganhei benhê! Espie quanto pagamos a Dito Barro, Gina Bambu e Milton
Buarque…”
        
“Não foi R$ 2.650,00?”
        
“Nhãnhãnhã… Foi exatamente R$ 265.000,00 e está aqui assinadinho no recibo…
Espie.”
        
“Mais um milagre do Bonje! O Dito Barro recebeu R$ 150,00 e assinou R$
15.000,00 – Gina Bambu ganhou R$ 500,00 e aqui consta R$ 50.000,00 – Os R$
2.000,00 do Milton Buarque viraram R$ 200.000,00…
        
“Quem manda serem analfabetos e assinar recibos em branco.”, disse uma alegre e
honesta Dona Nice.
        
“Como você é esperta, benhê!”
        
“Agora que aprendi o caminho das pedras, vamos aguardar a próxima homenagem e
faturar R$ 2.500.000,00.”
        
“Quem será o homenageado da vez?”
        
“O jovem Ipham está enciumado com o senhor Conde Phat e financiará um singelo
tributo aos muitos pedintes que alegram a velha cidade histórica.”
        
“Meu Bonje santo! Homenagear mendigos?”
        
“Sim! Farão uma nova praça na orla do lagamar e no centro da grandiosa obra,
que custará milhares de Reais, uma soberba obra de arte; um casal de mendigos
abraçados a seu cão amigo… Coisa para fazer turista chorar!”
        
“Nada como ter dinheiro sobrando.”
        
“O bom disso tudo é que sempre podemos ganhar um dinheirinho honestamente…
Enquanto aguardamos a nova licitação, que tal um tour pela Europa, benhê?”
        
“Vamos nessa! Fui…”
Gastão Ferreira/2015  

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