Histórias de vovó Pinhé

         A
estrada foi longa; um caminho com muitas flores, poucas pedras, descidas e
subidas; passou por grandes cidades e inúmeros vilarejos. Atravessou oceanos,
escalou montanhas e voou pelos céus esta estrada vida na qual sou viajor.
         Atualmente
moro numa cabana a beira mar; foi aqui que eu nasci e vivi até os meus cinco
anos de idade; estou me despedindo da vida na casa de praia de meus
antepassados. Nessa casa, as paredes guardam o aroma de comidas esquecidas, o
som de muitos risos, a alegria de crianças que se transformaram em homens e
mulheres valentes e que perderam seus sonhos na batalha pela sobrevivência.
         No
pomar um pé de cajá-manga secular espia as pitangueiras, os araçás e os butiás;
um riacho é a divisa natural com o terreno vizinho e em suas águas ainda nadam
os peixinhos que encantaram a minha infância feliz.
         Do
alpendre avisto o mar e me vejo novamente criança correndo na areia; ao longe
ouço o chamado de vovó Pinhé…. É à hora do lanche…. É a hora de ouvir
histórias:
        
Era ali, naquela moita, que o sapo Zeca e a sapinha Zezinha moravam e criaram
seus muitos filhos, contou vovó Pinhé.
        
Eram muitos os filhos, vovó?
        
Centenas! Mas Zezinha amava a todos por igual…
        
E ela sabia o nome de todos eles, vovó?
        
Que pergunta boba, menino! Uma mãe sempre sabe o nome de todos os filhos…
        
É que eram tantos sapinhos…
        
Nem tantos! Um dia um gavião descobriu a casa de Zeca e Zezinha e, começou a
roubar um a um os seus filhotes…
        
Que triste vovó Pinhé!
        
Triste era ouvir o lamento de Zeca e Zezinha na procura dos sapinhos
desaparecidos; um dia eles descobriram que era o gavião Antenor, o ladrão.
Resolveram agir imediatamente…
        
E, o que aconteceu, vó Pinhé?
         Eram
tantas as histórias que me perco com o nome dos personagens; conheci o sapo
Zeca e sapinha Zezinha, o gavião Antenor, Timbé o lobo guará que morava na
mata, a raposa Filomena que roubava galinhas e a coruja Adelaide…. Todos eram
animais endêmicos da Ilha Comprida e que diariamente compartilhavam da nossa
vizinhança naqueles bons tempos.
         Cresci,
estudei, fui ser piloto de avião; conheci o mundo e morei em lugares incríveis.
Criei meus filhos e hoje estou aqui, sozinho a me despedir da vida no berço de
minhas origens. Minha estrada chega ao fim e o fim é onde ela começou; meus
olhos estão cansados, meu corpo trêmulo e minhas mãos vazias de todas as
riquezas que conquistei e elas não me fazem falta…. Minhas lembranças estão
desaparecendo lentamente; nada recordo do ano passado, mas lembro perfeitamente
de fatos ocorridos há mais de setenta anos…
        
O caramujo Zebedeu se apaixonou por uma borboleta azul…
        
Ah vovó Pinhé! Um caramujo se apaixonar? Poupe-me!
        
Meu neto! Todos os seres vivos se apaixonam…
        
Nem todos, vovó! Eu nunca vi uma cobra apaixonada…
        
Isto é porque você desconhece a história da serpente Rafaela e da minhoca
Branquinha…
        
Conta vovó! Conta.
         Hora
de uma soneca; hora de olhar as paredes e sentir os aromas antigos. Pelo cheiro,
vovó Pinhé fritou casadinhos de manjubas ou será que fez doce de abóbora? Não
sei! Minhas lembranças vêm e vão… Devo estar com febre! Vovó Pinhé, que
partiu há quarenta anos, está sentada ao lado de minha cama, sorri e diz estar
apaixonada pelo gavião Antenor ou será pelo caramujo Zebedeu? Não sei! Não sei!
A única coisa da qual eu tenho certeza é que a minha longa estrada foi apenas
uma trilha e que acaba no mar.
Gastão Ferreira/2015
        

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