Belaíva & Pindaíba

         Seu
Gerésio estava muito preocupado. Com a idade de noventa anos viu muitas coisas
estranhas, ouviu causos de arrepiar sacristão; assistiu briga de foice na
juventude e arranca-rabo de cego puxando faca para outro cego, atingindo quem
foi apartar… Testemunhou entrevero de crentes; é um tal de “amarra Jesus” se
misturando com “arreda satanás” de deixar pastor sem rebanho. Bochichos com
macumbeiros? Observou de longe! Galinha preta nas encruzilhadas, nome do
desafeto na boca do sapo, coisas de assustar assombração. A pior briga da qual
teve notícia, foi uma rixa familiar entre mãe e filha, e, nem faz tanto tempo
que ocorreu… Foi assim;
         Dona
Pindaíba se desentendeu com a filha Belaíva por ciúmes bobos; a velha Pindaíba
sentiu-se ofendida quando a jovem Belaíva montou um belíssimo presépio no
jardim de sua casa e só de raiva Pindaíba fez outro presépio numa caverna e por
lá colocou carneirinhos com pernas de pau para guardarem o menino Jesus.
         Na
verdade o presépio foi à última gota no amargo cálice de desaforos que mamãe
Pindaíba aturava da filhota Belaíva; a guria aparecia na mídia… A mocinha
atraía multidões de fãs… A esnobe patrocinava shows milionários… Belaíva
era jovem, divertida, rica; uma ilha comprida de delicias e ferveção.
         Pindaíba
estava decadente; seus muitos filhos e filhas, chão do seu chão, não se
importavam com a mãe anciã e tentavam roubar o pouco que ainda possuía;
Registro? Filho ingrato! Levou a via-sacra, os saraus, o carnaval e não
satisfeito, o canalha sem noção, quer porque quer o Revelando São Paulo.
         Vida
de mãe esquecida! Filhos cruéis! Bando de pilantras! Não podia brigar com todos
eles; se os ofendessem ficaria sem hospital, sem maternidade para os muitos netos,
e, logo agora que pensava em negociar túmulos com a filha Pariquera… Não!
Tinha que evitar encrencas com os filhos mais velhos, mas, com a jovem e mimada
Belaíva, tão próxima, não deixaria barato!
         Sua
vontade era cortar relações de vez, bater a porta na cara da moleca; mas sem
pedágio como dar boa vida a meia dúzia de netos preferenciais? Netos que nunca
pegaram no pesado, seus mimos, suas crias amamentadas com o suor dos outros
netos… Ficou sabendo que Belaíva persegue pedintes; sim! Esses simpáticos
moradores de rua que adoram a velha Pinda e até a chamam de mamãe-princesa. A
cadela proibiu som alto no seu quintal e também não quer que as visitas sujem a
sua casa e pensa em multá-las por isso… Meu Bonje! Aonde chegamos? Nunca
imaginei que em minha velhice aturaria chiliques dessa biscatinha!
         Parece
que foi ontem! Só areal e uma trilha de terra; agora prédios luxuosos,
helicópteros, Jet Sky, catamarãs, mansões e ótimos hotéis… E eu? Eu caindo
aos pedaços! Mato tomando conta de tudo, ruas esburacadas, sem médicos, sem
maternidade, mas, sem vergonha de ser feliz… Santa decadência! Minha vingança
será maligna… Ela que me aguarde! Belaíva não dormirá em paz… Já encomendei
dez jamantas com foguetes e rojões…
         Seu
Gerésio nunca se esqueceu da maior queima de fogos que presenciou; por sete
noites os céus permaneceram iluminados, os pássaros não voaram, todos os
cachorros enlouqueceram e todos os gatos fugiram para a montanha… Ah! Essas
rixas familiares… Coisa feia! Pior do que briga de foice no escuro.
Gastão Ferreira/2015
            

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