Assessora de madame

         Milady entrou no rancho, esbaforida; –
“Madame Márcia Cristina de Oliveira Barros me convidou para ser sua assessora.”
         – “Mas filha, você não sabe nem fritar
um ovo, e vai assar carnes para a madame?”
         – “Mãe! Assessora é o mesmo que
auxiliar, ajudante. Dona Cris dará uma grande festa, só para grã-finos da
cidade grande, quer angariar fundos para a próxima eleição…”     
– “Três anos antes? Aí tem! Acho que madame quer dar o
bote antecipadamente…”
         – “Não é um bote que ela quer dar,
manhê! É uma festa.”
         – “Ah, filinha! Mamãe está tão feliz.
Valeu o esforço para te manter na escola. O que é o estudo! Minha flor, uma
assessora.”
         No dia da festa, madame pediu à Milady
que anotasse os nomes de quatro pessoas muito distintas, mas com as quais não
tinha intimidade, eles seriam os jurados do concurso “o mais belo leitão”; e que
Milady agisse sorrateiramente, e, depois lhe fornecesse os nomes.
         Milady entrou no salão, avistou o
professor Luciano; – “Prof., quem é aquela senhora tão alegre e espalhafatosa?”
         – “Ela é hilária, não Milady?”
         – “Obrigado professor!”, e anotou o
nome da mulher (Hilária), aproximou-se do doutor Roberval, e perguntou se ele
sabia o nome do senhor de terno e gravata vermelha.”
         – “Ignoro!”, disse o doutor, e Milady
fez mais uma marcação (Ignoro). Resolveu ser uma garota esperta, e abordar os
indicados; nada de perguntar à terceiros! Era ou não era uma assessora? Assim
se aproximou de um simpático senhor da melhor idade, e ofereceu uma bebida.
         – “Obrigado, menina! Sou abstêmio.”,
disse o homem.
         – “De nada, seu Abstêmio.”, e escreveu
o nome na lista. Vez de saber o nome do último jurado, um jovem bem apessoado.
Gente jovem gosta de um drink no capricho, e a guria caprichou; um coquetel
azul…
         – “Gostaria de provar de um coquetel
azul?”, ofereceu.
         – “Sou Daltônico, mas aceito. Muito
obrigado, gatinha.”
         A gatinha anotou o último nome
(Daltônico), e entregou a lista para madame Márcia Cristina de Oliveira Barros;
– “Pronto, madame! Aqui estão os nomes solicitados.”
         – “Ótimo trabalho, menina! Seu trabalho
como assessora está sendo magnífico; parabéns!”  
         Depois de muitos comes e bebes,
discretas paqueras, sorrisos forçados, caras e bocas, madame anunciou o
divertido concurso; qual o leitão mais bonito de seu sitio?
         – “E agora, vou convidar quatro de
vocês, meus queridos e estimados amigos, para formarem o júri do concurso.”,
muitos aplausos, vivas e curiosidade dos presentes.
         – “Peço que madame Hilária, o senhor
Ignoro, vovô Abstêmio, e o jovem Daltônico, tomem seus lugares na mesa do júri,
e apontou para cada um deles.”
         Ninguém se mexeu, todos gelaram, ninguém
se aproximou da mesa julgadora. Madame Márcia Cristina apontou os jurados;
você, querida Hilária! Pode vir, não se envergonhe.”, gargalhada geral, e a
indicada bufando de raiva;
         – “Nunca fui tão ofendida na vida! Meu
nome é madame Anisia Paranhos Ferreira Bastos, e sou apontada como hilária, sou
chamada de palhaça, engraçada, na frente da elite da cidade; é isto o que dá comparecer
em festinha de caipira! Nunca mais ponho meus nobres pés na zona rural.”, e
abandonou a festa.
         O advogado Rogerio Marcondes de
Marcondes Filho, ficou indignado por ser chamado de Ignoro, e o milionário
Dagoberto Alberto da Mota, que se passava por um bom copo e conhecedor de vinhos,
encolerizou-se por ter o seu segredo tão bem guardado, não bebia, era abstêmio,
ser revelado em público. O Jovem químico Andresson Novasky enfureceu-se; o dono
das industrias “Iguatinha”, estava presente, e agora descobrira ao vivo e a
cores que o seu encarregado de novos produtos, todos coloridos, era daltônico.
         Madame Márcia Cristina de Oliveira
Barros passou a maior vergonha, desistiu de pedir doação para a próxima
campanha eleitoral, e despediu a assessora Milady, após enchê-la de desaforos.
         Milady, aos prantos, tentava explicar
para a mãe o ocorrido; – “Manhê! A senhora estava certa, eu não podia ter
faltado a tantas aulas de português; viu no que deu?” 
         – “Não falei! Você mal sabe fritar um
ovo, e querendo assar carnes em casa de gente grã-fina, hum!”
         – “Assessora, manhê! Assessora… Não
me envergonhe, mais ainda.”
         – “O que é o estudo! O que é o estudo!”,
murmurou a mãe.
         E foi assim que Milady ganhou o apelido
de “assessora pra lamentar”; coisa do sitio! Eu, como sou apenas um cão rural,
não estou nem aí, mas também me pergunto; – O que é o estudo?
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2017
                                                                                   

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