As estátuas que andam

(Lenda Urbana)

         Iguape,
litoral sul do Estado de São Paulo, uma das cidades mais antigas do Brasil.
Toda a história do Brasil Colonial passou por Iguape, e deixou algumas marcas;
ficaram casarões, praças, fontes, restou um chafariz e nenhum pelourinho, e tivemos
vários. No Centro Histórico, sobrevive à duras penas um velho Leão, pedindo
para morrer, está pendurado no beiral do Sobrado dos Toledos, casa senhoril que
tinha senzala, e salões de festa. O Leão senil espia a Praça São Benedito, e
conhece cada habitante da cidade. Ele não se conforma; nunca saiu do lugar em
que foi fixado há quase duzentos anos, mas sabe de muitas estátuas que mudaram
de casa; ai, tem!
         Tudo
começou com o “Ídolo de Iguape”, uma peça pré-histórica esculpida pelos
formadores de sambaquis, tinha pouca idade, a criança, uns 5.000 anos; foi
passear na cidade de São Paulo, e nunca mais voltou. Os paulistanos mandaram um
cover no lugar do guri original, e ficou por isso mesmo.
         Hoje,
o objeto mais antigo que temos, é uma cruz (quatro pedras coladas com óleo de
baleia); feita na Europa Medieval, está conosco desde 1528. Quando a Princesa
se mandou do bairro de Icapara, apavorada com os constantes ataques de navios
piratas, e fundou a cidade de Iguape, trouxe consigo a cruz de pedra, e a
colocou sobre a igreja de Nossa Senhora das Neves, o templo foi demolido para
dar lugar ao Santuário do Bom Jesus, e a cruz escapuliu para o cemitério da
cidade. Provavelmente arrumou encrenca com os anjos de mármore, e se escondeu
no museu municipal por muitos e muitos anos, depois foi colocada sobre um belo
pedestal na orla do mangue, e finalmente descansa em paz no centro da Praça da
Basílica; gostava de andar, a danadinha! Mudou de casa sete vezes.
         A
belíssima Estátua da Liberdade, quem diria, até o ano de 1962 morou na Praça da
Basílica, e de mala e cuia, digo, de tocha na mão, escapou para o bairro Porto
do Ribeira. Parece que gostou do local, está lá até hoje. A Praça da Basílica parece
não gostar muito de estátuas, expulsou a do Almirante Barroso para os baixios
do lagamar, mas antes o Almirante passou um bom tempo escondido no depósito da
prefeitura.
         Por
último tivemos o entrevero com O Pescador, ele ainda é novato na cidade, mas já
mudou três vezes de casa, e também conheceu muito bem o depósito da prefeitura,
e se evadiu do galpão municipal para uma pequena praça, só sua, no bairro do
Porto do Ribeira; sorte de iniciante! Quase virou lixo.
         Algumas
das estátuas que andam, caminharam tanto que ninguém sabe aonde foram parar. Como
não existem ladrões na cidade, o mistério persiste; a Branca de Neve e os sete
anões de uma praça, no bairro do Rocio, sumiram. Eram dois os leões da
passarela, um desapareceu sem deixar vestígio, quem sabe fugiu com o último
circo que passou pela cidade. O veado de bronze, uma obra de fino lavor, que
estava na entrada da Fonte do Senhor, também sumiu; pode estar escondido na
montanha, vai saber o que se passa na cabeça de um veado de bronze!
         O
filhote de leão que enfeitava uma pracinha na margem do Valo Grande, perto do
Porto do Ribeira, foi morto a marteladas por um sem noção, nem sentiu a morte
chegar, ficou totalmente despedaçado, e a pracinha triste e vazia. Já alguns
anjos do cemitério, belíssimos anjos de grandes asas, ninguém sabe, ninguém viu;
provavelmente voaram para o céu, e levaram consigo o antigo sino do cemitério,
algumas pratarias e objetos sacros das velhas igrejas.
         Foi
assim que surgiu a lenda urbana das estátuas andantes, mas é bom não esquecer
que as estátuas também morrem, morrem por descaso, por desamor, pela falta de
conservação. Caso você tenha o privilégio de ter uma estátua próximo à sua
casa, cuide bem dela, pois ela sempre pode resolver mudar de lugar; em Iguape
tudo é possível, até o impossível acontece.
Gastão Ferreira/2017   

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