Antes do amanhecer
A
cidade era antiga; gente pobre, gente nobre, muitos pedintes, e um famoso santo
protetor. Em tempos passados, muito sangue correu; sangue de índio aprisionado,
sangue de escravo fujão. O ouro reluziu, o arroz floresceu, o rio assoreou, o
porto foi embora, os ricos fugiram, a vida serenou.
cidade era antiga; gente pobre, gente nobre, muitos pedintes, e um famoso santo
protetor. Em tempos passados, muito sangue correu; sangue de índio aprisionado,
sangue de escravo fujão. O ouro reluziu, o arroz floresceu, o rio assoreou, o
porto foi embora, os ricos fugiram, a vida serenou.
Ficaram
as histórias, milhares delas; o boitatá, a mula sem cabeça, os muitos
lobisomens. Causos de arrepiar os cabelos, de se trancar em casa nas noites de
lua cheia; da procissão dos mortos, dos defuntos que cobravam dívidas, das
carruagens fantasmas, dos homens de capa preta.
as histórias, milhares delas; o boitatá, a mula sem cabeça, os muitos
lobisomens. Causos de arrepiar os cabelos, de se trancar em casa nas noites de
lua cheia; da procissão dos mortos, dos defuntos que cobravam dívidas, das
carruagens fantasmas, dos homens de capa preta.
A
mágoa, o desencanto, o desamor, as picuinhas, as críticas mordazes, o dedo que
aponta o pecado alheio, a língua ferina, o olhar de arrogância, a devassidão.
Os pensamentos de vingança, a cobiça, o surripiar do bem alheio, todos juntos e
misturados espiavam a cidade.
mágoa, o desencanto, o desamor, as picuinhas, as críticas mordazes, o dedo que
aponta o pecado alheio, a língua ferina, o olhar de arrogância, a devassidão.
Os pensamentos de vingança, a cobiça, o surripiar do bem alheio, todos juntos e
misturados espiavam a cidade.
O
povo não era feliz nem infeliz; os aproveitadores o chamavam de povo sofrido.
Mentira! O povo sofrido era alegre e festeiro, cachaceiro; pulava o carnaval,
curtia uma praia, cantava e dançava, e nos dias santos não perdia uma
procissão, adoravam foguetes, bailes de viola, e se dedicavam com insana paixão
à cuidar da vida um dos outros, da sua não!
povo não era feliz nem infeliz; os aproveitadores o chamavam de povo sofrido.
Mentira! O povo sofrido era alegre e festeiro, cachaceiro; pulava o carnaval,
curtia uma praia, cantava e dançava, e nos dias santos não perdia uma
procissão, adoravam foguetes, bailes de viola, e se dedicavam com insana paixão
à cuidar da vida um dos outros, da sua não!
O
beija-mão era obrigatório, quase uma instituição; obter um favor, só de joelhos
e de olhos no chão. O príncipe da vez, o padre, o pastor, o curandeiro, o dono
do terreiro… Todos prontos para os rapapés, cara de paisagem, olhar de nuvem,
escolhidos por Deus para amargar a vida alheia.
beija-mão era obrigatório, quase uma instituição; obter um favor, só de joelhos
e de olhos no chão. O príncipe da vez, o padre, o pastor, o curandeiro, o dono
do terreiro… Todos prontos para os rapapés, cara de paisagem, olhar de nuvem,
escolhidos por Deus para amargar a vida alheia.
Os
estrangeiros eram apontados como uma aberração, e eram lembrados constantemente
que a rodoviária era logo ali; não os viam como irmãos. Tudo enganação! Bastava
um político famoso aparecer, e tudo era festa, servilismo, petição. O homem
fazia mil promessas, comia do bom e do melhor, beijava as crianças ricas, subia
no helicóptero e acena para o povo babão.
estrangeiros eram apontados como uma aberração, e eram lembrados constantemente
que a rodoviária era logo ali; não os viam como irmãos. Tudo enganação! Bastava
um político famoso aparecer, e tudo era festa, servilismo, petição. O homem
fazia mil promessas, comia do bom e do melhor, beijava as crianças ricas, subia
no helicóptero e acena para o povo babão.
O
bolo era pequeno, e as moscas sempre as mesmas. O mais feroz inimigo se tornava
o melhor irmão; o bolo em primeiro lugar, decência não! O ladrão do passado era
o homenageado como homem probo, humilde benfeitor, merecedor de uma medalha, de
muito amor e devoção.
bolo era pequeno, e as moscas sempre as mesmas. O mais feroz inimigo se tornava
o melhor irmão; o bolo em primeiro lugar, decência não! O ladrão do passado era
o homenageado como homem probo, humilde benfeitor, merecedor de uma medalha, de
muito amor e devoção.
Algo
mudou? Parece que sim! Os foguetes silenciaram, as coisas caminham devagar.
Quem não foi contemplado virou crítico; história antiga, nada como uma fatia do
bolo para celebrar a paz… Vamos aguardar!
mudou? Parece que sim! Os foguetes silenciaram, as coisas caminham devagar.
Quem não foi contemplado virou crítico; história antiga, nada como uma fatia do
bolo para celebrar a paz… Vamos aguardar!
Agora
é madrugada, antes do amanhecer; quem sabe o próximo verão trará novidades? Sei
não! O ontem passou, deixou marcas, dores para esquecer. Que venha o amanhã,
que o sol brilhe límpido e forte… Estamos de passagem entre o ontem e o hoje,
o agora é um tempo antes do amanhecer.
é madrugada, antes do amanhecer; quem sabe o próximo verão trará novidades? Sei
não! O ontem passou, deixou marcas, dores para esquecer. Que venha o amanhã,
que o sol brilhe límpido e forte… Estamos de passagem entre o ontem e o hoje,
o agora é um tempo antes do amanhecer.
Gastão Ferreira/2017
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.