Alice não mora mais aqui
A Bela
Adormecida acordou de um soninho de quatro meses, ela, desde a maldição da
Bruxa do Morro do Pinheiro, que a fez dormir por trezentos anos, gostava de
tirar longos cochilos. Do sono tricentenário jamais se esqueceu; naquela tarde
ao visitar Alice, sua amiga de infância, conversaram sobre o último ataque
pirata à cidade, o roubo do crucifixo de ouro no sobrado do comendador Euzébio,
da nova leva de escravos vendidos no porto grande.
Adormecida acordou de um soninho de quatro meses, ela, desde a maldição da
Bruxa do Morro do Pinheiro, que a fez dormir por trezentos anos, gostava de
tirar longos cochilos. Do sono tricentenário jamais se esqueceu; naquela tarde
ao visitar Alice, sua amiga de infância, conversaram sobre o último ataque
pirata à cidade, o roubo do crucifixo de ouro no sobrado do comendador Euzébio,
da nova leva de escravos vendidos no porto grande.
Alice
foi até o alpendre espantar um bugio que costumava roubar bananas; os guaribas
eram uma praga, estavam por toda a freguesia, entravam nas moradias, reviravam
gavetas, mordiam as crianças. A serviçal trouxe o chá, Bela apenas bebericou, e
o mundo desapareceu. A rapariga era a famigerada Bruxa do Morro do Pinheiro
disfarçada de empregada da casa.
foi até o alpendre espantar um bugio que costumava roubar bananas; os guaribas
eram uma praga, estavam por toda a freguesia, entravam nas moradias, reviravam
gavetas, mordiam as crianças. A serviçal trouxe o chá, Bela apenas bebericou, e
o mundo desapareceu. A rapariga era a famigerada Bruxa do Morro do Pinheiro
disfarçada de empregada da casa.
A
Bruxa odiava a Bela, aliás, a Bruxa odiava a tudo e a todos. Bela não tinha
culpa por ser rica, charmosa, estudada; já lera dois livros, coisa rara para as
moças da época. A feiticeira, por muitos anos mantivera uma boa amizade com
Bela, depois a amizade virou paixão platônica, e por não ser correspondida se
transformou em ódio mortal.
Bruxa odiava a Bela, aliás, a Bruxa odiava a tudo e a todos. Bela não tinha
culpa por ser rica, charmosa, estudada; já lera dois livros, coisa rara para as
moças da época. A feiticeira, por muitos anos mantivera uma boa amizade com
Bela, depois a amizade virou paixão platônica, e por não ser correspondida se
transformou em ódio mortal.
Quando
Bela acordou, levou o maior susto; estava num porão, no porão da casa de Alice.
Com muito custo subiu as escadas, espiou a Praça da Matriz; o cemitério de
frente à igreja desaparecera. Correu até o porto, não existia mais porto.
Carroças sem cavalos trafegavam em alta velocidade, avistou uma ponte, uma
estátua sobre a montanha.
Bela acordou, levou o maior susto; estava num porão, no porão da casa de Alice.
Com muito custo subiu as escadas, espiou a Praça da Matriz; o cemitério de
frente à igreja desaparecera. Correu até o porto, não existia mais porto.
Carroças sem cavalos trafegavam em alta velocidade, avistou uma ponte, uma
estátua sobre a montanha.
Qual
a explicação para o fenômeno? Desmaiara, tivera um achaque passageiro após
bebericar um chá, provavelmente dormitara por algumas horas, e agora estava
tudo mudado; as casas eram diferentes, as pessoas se vestiam de maneira
estranha, a moda mudara em poucas horas? Quanto lixo nas ruas! Meu Bom Jesus da
Cana Verde!
a explicação para o fenômeno? Desmaiara, tivera um achaque passageiro após
bebericar um chá, provavelmente dormitara por algumas horas, e agora estava
tudo mudado; as casas eram diferentes, as pessoas se vestiam de maneira
estranha, a moda mudara em poucas horas? Quanto lixo nas ruas! Meu Bom Jesus da
Cana Verde!
Por
trezentos anos Bela dormira; a Iguape que conhecera era pacata, poucas casas e
todas com imensos quintais, poucas pessoas nas ruas, algumas charretes, muitos
escravos com seus afazeres. Acordara numa outra Iguape? Coisas nunca imaginadas
aconteciam bem na sua frente, nem sequer podia indagar, não conhecia as
palavras para se referir ao que não conhecia. Chegou à conclusão de que dormira
bem mais do que algumas horas. Necessitava conversar com Alice, a amiga teria
uma explicação para o estranho fenômeno.
trezentos anos Bela dormira; a Iguape que conhecera era pacata, poucas casas e
todas com imensos quintais, poucas pessoas nas ruas, algumas charretes, muitos
escravos com seus afazeres. Acordara numa outra Iguape? Coisas nunca imaginadas
aconteciam bem na sua frente, nem sequer podia indagar, não conhecia as
palavras para se referir ao que não conhecia. Chegou à conclusão de que dormira
bem mais do que algumas horas. Necessitava conversar com Alice, a amiga teria
uma explicação para o estranho fenômeno.
Voltou
ao casarão, bateu na porta, uma menina apareceu. Bela perguntou por Alice. A
guria encarou Bela; roupas antigas, cabelos longos e mal cuidados, nenhuma
maquiagem, unhas mal feitas, sem celular, sem bolsa, sem batom, sem perfume,
provavelmente uma pedinte ou louca, ou quem sabe uma turista estrangeira, e a
resposta, antes de bater à porta na cara de Bela foi; – “Alice não mora mais
aqui.”
ao casarão, bateu na porta, uma menina apareceu. Bela perguntou por Alice. A
guria encarou Bela; roupas antigas, cabelos longos e mal cuidados, nenhuma
maquiagem, unhas mal feitas, sem celular, sem bolsa, sem batom, sem perfume,
provavelmente uma pedinte ou louca, ou quem sabe uma turista estrangeira, e a
resposta, antes de bater à porta na cara de Bela foi; – “Alice não mora mais
aqui.”
Observação: A história de Bela continua
no próximo capítulo.
no próximo capítulo.
Gastão Ferreira/2017
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.