A pele da noite

         Naquela
madrugada Pedro Paulo acordou de um pesadelo; um animal feroz o perseguiu
durante o sono. No começo era um filhote de cachorro, um cãozinho preto muito
brincalhão, e o seu nome era Tarim.
         Tarim
cresceu rápido, e aos três meses seu tamanho era o dobro de um cão pastor
adolescente; o cachorro não abandonava o dono. Onde Pedro Paulo estava, ali
também estava Tarim, o interessante era que Tarim quase não se alimentava.
         Coisas
estranhas começaram à acontecer na zona rural; animais de criação desapareciam
sem deixar vestígio. Porcos, galinhas, cabras simplesmente sumiam. Pedro Paulo
acordou assustado, algo ocorria no terreiro da casa. Espiou pela janela e
avistou Tarim bem ao lado do leitão Jereba, pareciam conversar.
         Jereba
acompanhou Tarim até a sua casinha, entrou. Pela manhã Pedro Paulo notou que
Jereba havia desaparecido. Foi assim com muitos outros animais domésticos,
entravam na casinha de Tarim e desapareciam.
         O
primeiro à sumir foi o menino Tonho Lua, depois Nenê Pelado, a guria Nildinha e
o filho do Pastor Isidoro. No sitio todos apavorados; onde foram as crianças?
Onde estavam? Pedro Paulo começou a ouvir choro de menino assustado, miados de
gatos invisíveis, alaridos de animais, e o som vinha da casinha de Tarim.
         Tarim
se mostrava dócil, um cachorro carinhoso que amava o dono, mas Pedro Paulo
sabia que algo acontecia todas as noites, algo além da imaginação. Após o
anoitecer, tomou coragem e foi espiar dentro da casinha de Tarim, o cachorro
não estava. Escutou o som de vozes, falas de criança e avistou Tarim e dois
meninos se aproximando, saiu da casinha e escondeu-se atrás de uma árvore.
         Os
moleques entraram na casa do cachorro, a porta da casinha era grande, pois
Tarim era enorme. Entraram e não saíram, pedidos de socorro vindos do nada,
foram ouvidos. Pedro Paulo tomou coragem e voltou a entrar na casinha. 
         Pedro
Paulo foi quem construiu a moradia de Tarim, uma casa espaçosa de metro e meio
por dois metros. Sem medo enfrentou o desconhecido e a escuridão o envolveu, a
negritude era total, como a pele da noite, aderia e grudava. Agora a casa era
imensa, caminhou vários metros, tateou a parede, detectou uma porta,
empurrou… Gritou em desespero, todos os desaparecidos estavam ali, todos
mortos, e Tarim acabara de devorar um dos garotos.
         Tarim
não era o mesmo, era um demônio, um ser infernal. Se aproximou de Pedro Paulo,
seus olhos amarelos fitaram o dono, escancarou a bocarra… Pedro Paulo
despertou do pesadelo, suava e tremia.
         Foi
difícil voltar à pegar no sono; pela manhã acordou amuado, tomou café, foi
alimentar as galinhas, na porta uma caixa de papelão; que será? Abriu a caixa,
e dentro um filhote de cachorro, um cão pastor, negro como a noite mais escura,
e na caixa estava escrito o seu nome; Tarim.
Gastão Ferreira/2017
        

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