A história de um romeiro

– João de Freitas Sampaio –

(Jango Perna)

         Poeta,
compositor, artesão; João de Freitas Sampaio nasceu em Arraial Ventura, bairro
rural da cidade de Capão Bonito há setenta e três anos (05/06/1944), e aos seis
anos de idade veio na garupa de um cavalo, com seu avô, pela primeira vez à
nossa cidade. Capão Bonito, dista 205 km de Iguape; foi uma grande aventura
para um guri de sitio, e uma fascinante viagem no tempo, para todos nós, saber
da sua história de vida.
        
67 anos todas as estradas do Vale do Ribeira eram de barro, a rodovia Regis
Bitencourt não existia, os carros eram poucos, carroças eram comuns para longas
viagens. Os antigos romeiros eram gente corajosa; dormiam em barrancas de rio,
embaixo de pontes, em taperas abandonadas. Traziam consigo todas as tralhas de
primeira necessidade; víveres, panelas, caldeirão, pratos, talheres, lenha e
esteira para dormir.
         Não
existiam pontes sobre o Rio Ribeira, e as três balsas pelas quais vadeavam o rio
(Uma em Sete Barras e duas em Iguape), só faziam a travessia até às 18 horas;
andavam a pé cerca de 40 km por dia, com algumas pausas para pequeno descanso.
Cinco dias de viagem; na primeira noite pernoitavam no Bairro do Braz nas
vizinhanças de Capão Bonito, na beira de um barranco. Na segunda noite, debaixo
de uma ponte no Parque Estadual Carlos Botelho, na Serra da Macaca, em plena
mata nativa e cercados por animais selvagens. Na terceira noite dormiam em Sete
Barras, a margem do Rio Ribeira. Na quarta noite estavam em Pariquéra-açu e
repousam no reservado de um bar. Na quinta noite chegavam à Iguape, dormiam no
bairro do Rocio na orla do Valo Grande, pois a balsa parava as 18 horas.  
         No
sexto dia de viagem se hospedavam na Casa do Santo; época de chuvas, lamaçal…
Tomavam banho na Fonte do Senhor, aproveitavam para retirar lascas da “pedra
que cresce”, um santo remédio para todas as doenças. A Fonte fechava seus
portões às 17 horas, tinha uma onça rondando por lá, era o que dizia o vigia do
local.
         A
primeira devoção era com o Bom Jesus; três horas na fila para beijar o pé da
imagem. A subida do Morro do Espia era um passeio obrigatório; escada escavada
na terra, escorregadia, muitos tombos, mas o panorama compensava; do alto se
avistava toda a cidade, o lagamar, o Valo Grande, o mar….
         Quinhentos
Réis para atravessar o Mar Pequeno de canoa, caminho de muita lama, areão, três
quilômetros até a praia, apenas uma casa onde hoje é o Posto de Bombeiros,
voltavam antes das 17 horas, pois ao anoitecer muitos bichos do mar apareciam
na beira da praia, era o que informavam.
         O
tempo passou, em 1977 João de Freitas Sampaio casou com Tereza, vieram os seis
filhos e depois os oito netos; em 67 romarias do “Grupo de Romeiros do Bom
Jesus Tradição e Fé”, Jango Perna, como é conhecido Seu João de Freitas Sampaio
tem de cor e salteado o caminho entre Capão Bonito e Iguape; – 585 curvas – 26
pontes de concreto – 3 pontes de madeira – 25 riachos – 3 cachoeiras na beira
da estrada – 4 bicas de água cristalina – 15 igrejas católicas – 33 km de Mata
Atlântica contínua – 3 vilas (Ibaitinga/Barra do Ribeirão/Subauma) – 3 cidades
(Sete Barras/Registro/Pariquéra).
         As
romarias atuais são diferentes; nada de mochila nas costas, ninguém carrega
peso, um ou mais carros de apoio acompanham o grupo, e dentro deles; fogão a
gás, mesas, cadeiras, colchão, cozinha completa, mantimentos armazenados em
freezer, água para beber, banho quente.
         O
prazer da romaria é o mesmo de antigamente; calos nos pés, canseira, risos,
tombos, muitas histórias para contar. Seu Jango Perna nunca esqueceu a tarde em
que esteve frente a frente com uma onça parda, foi no ano de 2006… Bem! Na
verdade não ficou assim fuça a fuça com a onça, o bicho estava há uns bons
trinta metro de distância; qual o problema? Onça é onça.
         Obrigado
por sua história Seu Jango; volte sempre, pois o Bom Jesus e a cidade de Iguape
estarão à sua espera.
Gastão Ferreira/2017    
        
           

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