A garota da bicicleta

                Berenice nasceu na zona rural, mais precisamente no
Rio das Pedras. Para chegar lá, duas horas remando a canoa, mas a beleza
natural compensa; regatos de águas cristalinas, rios piscosos, altas montanhas,
pássaros, onças, tamanduás, anta, bugios e muito mais.
         Casas
distantes, apenas picadas em meio a mata atlântica, sem luz, sem telefone, sem
botijão de gás. Os meninos tomam banho de rio, sobem nas árvores, montam
arapucas, catam nos galhos as frutas maduras, pescam de linhada, conhecem os
passarinhos pelo canto.
         Berenice
estava com seis anos quando veio pela primeira vez à cidade grande, e ficou
encantada. Conheceu um ventinho muito bom chamado ventilador, assistiu
televisão e aprendeu à cantar vários comerciais. Seu pai foi visitar um amigo
que morava em um sobrado, a menina ficou horas subindo e descendo a escada; que
coisa boa era uma escada, subia e descia.
         Passou
por alguns sustos; quase foi atropelada por um carro, andou pelas calçadas,
entrou num supermercado, mas o que mais chamou à sua atenção foi uma bicicleta.
Que bicho bonito! Andava sozinha e corria mais rápido do que um tateto; queria
uma, cismou que só seria feliz se possuísse uma bicicleta.
         Não
adiantou, seu pai explicou que onde moravam ela não poderia andar de bicicleta,
pois tudo era mato; – “Eu quero! Eu quero! Eu quero!” gritava a menina. Levou
uns bons tabefes na cara, e sossegou, mas não desistiu. Os parentes da cidade
ficaram horrorizados com a atitude do pai de Nicinha; onde se viu estapear uma
criança! Nada disseram porque o homem trouxe do sitio uma paca, um tatu e meio
saco de farinha de mandioca de presente.
         A
guria consegui o que queria. Infernizou tanto os parentes, que a Tia Creuza deu
a velha bicicleta do neto, que morrera atropelado, para a sobrinha. Um tanto
enferrujada, três aros faltando, mas tudo bem, era uma bicicleta que a chata
queria? Pois aí tem uma! Pode levar para o sitio, e seja muito feliz, e vê se
não aparece mais por aqui, sua jacu!
         Berenice
causou! A escola rural ficava à cinquenta metros da sua casa; ia de baike e
fazia questão de lanchar em casa, só para esnobar. Só ela podia andar na
bicicleta, não emprestava para ninguém. Uma noite saiu de baike, perdeu a
direção, caiu no rio e morreu afogada. Que tristeza! A bicicleta nunca foi
encontrada.
         O
primeiro que viu a visagem foi o menino Maéco; estava passarinhando e ouviu um
barulho diferente, até pensou que talvez fosse um Saci. Foi espiar e quase
borrou as calças; Nicinha vestida de branco, fundas olheiras, pedalando no meio
da mata a sua velha bicicleta.
         Muitas
pessoas passaram a ver Berenice, e sempre a noitinha, e sempre no horário em
que ela se afogou. Um turista, coisa rara naquele fim de mundo, bateu uma foto.
A única foto que tiraram da menina Nicinha em sua curta vida.
         A
garota da bicicleta virou lenda urbana, e tem gente que jura que viu um moleque
na garupa da baike; o primeiro dono da bicicleta, o menino que morreu
atropelado na cidade grande. Eu, hem!
Gastão Ferreira/2017
          

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