O homem invisível

         A
estrada que liga a cidade de Pariquera à Iguape, antigamente era uma trilha,
muitos escravos e senhores de engenhos transitaram por ali. Acontecimentos
estranhos nunca foram novidades para quem habitualmente passa por aquelas bandas;
no trecho entre o bairro de Ilha Grande e o bairro de Subauma fatos bizarros
são presenciados e silenciados.
         Quarenta
quilômetros de pista e pouquíssimas casas, nenhum estabelecimento comercial na
beira do caminho, e num piscar de olhos um vulto atravessa a estrada, e
desaparece na mata nativa.
         Edson,
Sandra e Marlene vinham de Pariquera, e próximo ao Posto de Gasolina inativo de
Ilha Grande, sem mais nem menos um homem estava parado no meio da pista, o
carro quase capotou e atingiu de leve o pedestre. Edson brecou o carro, foram
os três socorrer o meio atropelado, e não havia uma viva alma na estrada;
apavorados entraram no veículo, e prosseguiram a viagem. Pararam na primeira
casa que encontraram.
         Seu
Pedróca, o dono da casa, explicou que era normal o aparecimento de visagens
depois do entardecer; – “Deixe ver! Deixe ver! Na época das chuvas é normal
atropelarem um grande e negro cão que atravessa a pista. Nas noites sem lua é a
vez de uma mulher com roupas de dantes aparecer na rodovia, por estes dias do
ano é o homem invisível quem se posta no meio da estrada.”
        
“Estranho! Ninguém comenta sobre tais fatos.”, disse a moça Marlene.
        
“Ninguém quer passar por doido, Dona! Sabe como é, viu visagem é pirado ou
usuário de droga. Eu mesmo já participei de muita coisa feia neste fim de
mundo… Tê esconjuro! Crediosdeuspai…” falou seu Pedróca.
        
“Calma, Seu Pedróca! Nós acreditamos no senhor. Quer dizer que o senhor já viu
o homem invisível?” perguntou Edson.
        
“Desde moleque, seminino! Meu avô contava que o avô dele chegou a puxar
conversa com o sujeito…”
        
“Meu Bonje! Nem me conte…” murmurou Sandrinha.
        
“Pois conto sim! O homem era um Capitão do Mato, meeiro do Coronel Ildefonso,
gente de sangue ruim, cria do capeta. Seu maior prazer era açoitar negro fujão,
matou muita gente inocente… Uma noite abusou da cachaça e se perdeu nestas
matas, foi atacado por uma onça parda e desde então vaga nesta estrada
procurando o rumo de casa…”
        
“Mas tem onça por aqui, seu Pedróca?” indagou Marlene.
        
“Aos monte, saminina! É que bem antigamente este caminho era uma picada no meio
do mato, depois fizeram uma estradinha e bem depois asfaltaram… O Capitão do
Mato, não vê a estrada asfaltada, só a pequena trilha; é por isso que fica
plantado bem no meio do caminho…”
        
“Como o senhor ficou sabendo disso, seu Pedróca?” os três perguntaram ao mesmo
tempo.
        
“Quando eu era vivo, eu sabia de muitas coisas.” riu seu Pedróca, e foi
desaparecendo lentamente, e com ele a velha casa, as árvores frutíferas, a cerca…
Ficou apenas a vegetação nativa e a estrada vazia.
         Edson,
Sandra e Marlene jamais comentaram sobre o ocorrido, e nem eram doidos para
falar que conversaram com um fantasma e atropelaram um homem invisível.
Gastão Ferreira/2017       

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