Velhas raízes

         O
pai do meu tataravô foi um aventureiro, não dos famosos, um destes de quem a
história nem marcou o nome. Naqueles bons tempos de 1730, mal o guri ganhava
umas penugens, o pai avisava; – “Não quero barbado em casa! Pode fazer a mala e
cair no mundo. E só volte rico, e casado!”
         Foi
assim que este meu ancestral, antes dos quinze anos, virou aventureiro.
Conheceu o Rio da Prata, o Rio Guaíba, o Rio Tietê, o Rio de Janeiro, o Rio
Ribeira. O rapaz iniciou sua carreira como marinheiro, eis a razão pela qual
conheceu tantos rios.
         Ganhou
uma fortuna na marinha de guerra; participou de alguns saques contra os
uruguaios, argentinos, e paraguaios. Retornou ao lar, rico e casado. A moça era
tímida, de poucas palavras, longos cabelos negros, aparência de caiçara.
         Meu
antepassado comprou muitas terras, possuía escravos, e um monte de filhos.
Ganhou um título de nobreza do rei de Portugal, só para não fazer revoluções.
Coisas da época! Qualquer desavença e vinha uma revolução. Tivemos várias.
         A
herdade do meu ancestral estava localizada em pleno pampa gaúcho; sua esposa
sentia falta de montanhas. Os filhos estranhavam, pois nem sabiam o que era
montanha. Ela tentava explicar, eles não acreditavam que pudesse existir
coxilhas tão altas. Quando questionada sobre tal assunto, ela desconversava; –
“Num sei! Sonho que tive.”, os netos a apelidaram de Vovó Maluquinha.
         Uma
vez ela teve febre alta, variou muito, falou o que não devia, o marido trancou
a porta do quarto, ela gritava que tinha saudade do mar, do manguezal, dos
guarás, da lua brilhando sobre o mar pequeno, sentia falta das procissões, dos
foguetes, das festas juninas; acharam que ela havia endoidado.
         Era
um mistério o local onde meu antepassado arranjou casório. Nem na hora da
extrema-unção confessou ao padre a localização da freguesia de origem de Vovó
Maluquinha, e o padre era daqueles bem curiosos, e metido a inquisidor.
         Quando
Vovó Maluquinha ficou caduca, começou à falar coisas sem cabeça nem pé; –
“Quero comer farofa de tamanduá!”, as serviçais ficavam horrorizadas, ou então;
– “Que vontade de comer manjuba frita!”, piorou, pois ninguém nem sabia o que
era manjuba. Uma noite apavorou a família, acordou aos gritos de “o Bonje vem
me buscar”, três dias depois morreu.
         O
que é o estudo? Três séculos se passaram, e a única coisa que restou da imensa
fortuna do pai do meu tataravô foi um diário amarelado pelo tempo. É lá que
estão anotadas as bizarrices de Vovó Maluquinha. Hoje sabemos que ela foi
raptada por piratas em uma pacata cidadezinha do litoral paulista, sabemos que
o pai do meu tataravô pagou uma grana pela bela morena caiçara. E que ele nunca
foi da marinha de guerra, e sim um flibusteiro.
         Quando
pessoas xenófobas informam, à quem interessar, o endereço da rodoviária aos não
nativos, penso com os meus botões; – “Tem razão, não sou daqui, mas a mãe do
meu tataravô, era.” Ah, as velhas raízes! Vovó Maluquinha adorava uma boa
travessa de manjubas fritas, e eu também.
Gastão Ferreira/2016
          
          

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