Velório nunca mais

         A
Princesa do Litoral chamou Josephus, assessor número um e seu puxa saco
oficial; “- Mande preparar um vestido negro; aparelhe os cavalos pretos,
usaremos a carruagem escura.”
        
“O que aconteceu majestade? Por acaso morreu um parente? Cassaram alguém? Destronaram
alguém?”
        
“Faleceu o Chaveiro Real, e minha presença no velório se faz necessária.”
        
“Alteza! Não lembro de nenhum guardamento à que a senhora compareceu.”
        
“Morre muita gente no reino, e todo o dia um infeliz bate as botas; caso eu
fosse à todos os velórios não sairia mais do cemitério.”
        
“Não acho prudente comparecer à despedida! O que os súditos dirão?”
        
“Não interessa, e nem quero saber! O Chaveiro Real conhecia todos os códigos
secretos do reino. Uma pequena falha de minha parte, e a família dele por
pirraça ou chantagem, pode negar acesso as senhas do cofre, e sem cofre, adeus mordomias.”
        
“Bobagem, Majestade! Um cofre sempre pode ser destravado; sabemos muito bem
disto, pois já aconteceu. Cumprirei fielmente a suas ordens, a senhora manda!
Vou preparar a carruagem, mas vamos estacioná-la longe da muvuca.”
        
“Mais respeito, Josephus! Falecimento é uma coisa séria, mas talvez você tenha
razão, nada de causar tumulto. Um simples velório, coisa corriqueira, alguns
parentes, poucos amigos… Vamos? Quero passar despercebida.”
         Parecia
uma Festa de Agosto; barraquinhas de pastel, carrinhos de pipoca, milho verde,
vendedores ambulantes de cerveja em lata, tabuleiros com doces, água de côco. O
bar frente o guardamento lotado; muita cerveja, doses de pinga, espetinho de
carne e frango assando na calçada. Centenas de catadores de latinhas, todos os
trezentos moradores de rua pedindo dinheiro para comprarem pão, alguns se
oferecendo para tomar conta das carruagens. Só faltou os foguetes; povo,
povinho e povão, todos juntos e misturados. As palavras mais ouvidas eram “não
esqueça de mim”, “conto com você amigão”, “deixa a conta de luz lá em casa”, “pode
pedir um refrigerante para o menino que eu pago”, muitos sorrisos e tapinhas
nas costas. A Princesa estranhou;
        
“Josephus! Você errou o endereço?”
        
“Não, majestade! Esqueceu que estamos num período pré eleitoral? Até a eleição
do próximo alcaide todos os velórios serão concorridos, depois ficam às
moscas.”
        
“Olha ali! Aquelas duas velhotas não são as famosas “irmãs inimigas”, Bela e
Fera? Parece que fizeram as pazes!”
        
“São candidatas e não querem dividir o eleitorado, estão jogando para o público,
os olheiros estão filmando.”
        
“Josephus! E estas pessoas se estapeando, quem são?”
        
“Candidatos aos nove cargos de conselheiros, Alteza.”
        
“Mas parecem tantos para tão poucos cargos!”
        
“Metade da população do reino quer se candidatar; grana boa, muitas mordomias,
viagens luxuosas e pouco trabalho… Está difícil separar o joio do trigo! Aliás
o trigo já era, a moda atual é separar o arroz do feijão…. Pobre reino!”
        
“Daqui posso ver sete pessoas de terno recebendo os pêsames, não sabia que o
Chaveiro Real tinha tantos filhos!”
        
“Os sete chorões são os atuais conselheiros, falta um deles! Onde estará?”
        
“Nem imagino! Quem sabe está cumprindo com sua obrigação; vistoriando os mal
feitos do reino. ”
        
“Josephus, os conselheiros também dão tapinhas nas costas dos que adentram o
salão, parece que têm uma palavra de consolo para cada amigo do defunto. Belo
gesto!”
        
“Também estão pedindo votos, majestade! Não querem largar o osso de modo
nenhum… Que vergonha!”
        
“Também acho! Pensando melhor, vamos passar na floricultura e escolher uma
linda coroa fúnebre, e peça para entregarem em meu nome. Vamos respeitar a
memória e a família do morto.”
        
“Desistiu, majestade? Guardamento em ano eleitoral é para os fortes!”
        
“Você nem notou, mas alguns candidatos me confundiram com a viúva, e pediram o meu
voto. Convidaram para churrascos, comes e bebes grátis. Estou com dor nas
costas de tanto levar tapinhas… Velório em ano eleitoral? Nunca mais!”
Gastão Ferreira/2016
          

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