Única bagagem

         Hoje
acordei nada legal; na véspera fiquei sabendo da morte de um primo bem mais
jovem, e quando os mais moços partem, os mais velhos inventam doenças
imaginárias, sempre as piores e sem cura. Notam dores nunca sentidas, lembram
de outros parentes falecidos, se interrogam se os que já partiram estão
felizes, se a vida realmente continua.
         Estava
me sentindo desgostoso, um tanto amargurado, um tanto perdido. Encontrei comigo
na praça, eu espiava um artesanato indígena, uma onça; não sei o porquê de
todas as onças entalhadas pelos índios serem iguais. As mesmas manchas
amarelas, o mesmo tamanho, todas deitadas a espera de um caçador, não comprei.
         Na
banca de jornal as novas do dia; em tempo de internet é mais fácil ler as
revistas eletrônicas, e as notícias não são nada boas; inflação, desemprego,
estupro coletivo, politicagem e Lava Jato. Os comentários na praça também não
são os melhores; Barra sem trapiche, último ano do Revelando na cidade, dizem
que o próximo será em Registro, mas todo o ano dizem o mesmo. Uma moça saltou
pelada da passarela, brigou com o namorado e resolveu virar notícia.
         Os
sem tetos jogaram um sofá no lagamar e continuam usando os balanços da orla do
mangue como varal. Os meninos do mal, os manos, roubaram três bicicletas de alumínio;
agora são dez da manhã. Tempo frio, paradeira geral, lotérica sem fila; saudade
do carnaval e Festa de Agosto, vontade de rever a praça lotada de turistas.
         Comprei
um pastel, um cão me fitou com olhar pidão; ainda temos alguns cachorros sem
dono, sem casa e sem comida. Dividi o pastel e dei ao cão a parte menor; parece
que gostou! Quer o outro pedaço. Faço de conta que não notei a cara de fome. Um
rapaz pedinte comentou; – “Deu o pastel para o cachorro, mas me negou um reau.
Tomara que se ferre!”
         Encontrei
Dona Carminha, melhor idade. Chegou à pouco de Portugal, foi visitar o filho; voltou
com sotaque, ora pois-pois. Que bom que o filhote mora em Lisboa e não em
Pequim; com certeza sotaque chinês é bem mais complicado. A próxima viagem será
à Santos, consulta médica marcada faz seis meses.
         Outro
que encontrei foi o “Little Fish”, estacionando o carro bem longe do local de
trabalho, explicou o motivo; o alarme disparou e importunou uma madame
aposentada. A velhota armou o maior barraco, e avisou que da próxima vez não
vai deixar barato não. Coisas nossas!
         Fui
até o porto da balsa. Faz tempo que a balsa foi desativada, o local está
completamente assoreado, mas mesmo assim continuamos a chamar Porto da Balsa, o
mesmo ocorre com o Citur. Ninguém fala Citur e sim antigo mercado municipal. Um
pescador amador fisgou um robalo dos grandes; até parece que o padre anunciou
no alto-falante, pois apareceram do nada vários pescadores. Um menino que
deveria estar na escola, pulou do trapiche… Adeus pescaria, adeus sossego. Me
vi espiando o sacana do moleque saltar e atrapalhar a pescaria, me reencontrei.
         Voltei
alegre para casa; minha cidade é assim mesmo, ninguém vai mudar a nossa
realidade. Vivemos de reclamar de tudo e de todos. Cuidar da vida alheia ainda
é o esporte mais praticado, mas coitado do serracimano que falar mal da cidade!
A vida é linda, cheia de nuances. Deus nos ama. Meu primo morreu ontem e foi
morar com Jesus, um dia também partirei, e levarei comigo a lembrança destas
montanhas, destas águas, do vento leste; elas estão gravadas na minha mente, e
minha mente é minha única bagagem.
Gastão Ferreira/2016    
        
             

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