Um pé de laranja
Tia Nair, tio
Cícero, e a prima Zenaide moravam numa casa pequena, o terreno também era
acanhado, e acabava numa cerca de arame na divisa de uma granja onde se
plantavam flores. Desde que tenho lembranças, tia Nair sempre gostou de hortas;
tinha uma plantação de tomate, cheiro-verde, salsinha, couve. O que chamava à
atenção, no pequeno lote, era uma laranjeira; não muito alta, poucos galhos,
terra árida. Eu pensava que a tia Nair era um pouco feiticeira; nunca vi um pé
de laranja carregar tanto, chegava à vergar os ramos.
Cícero, e a prima Zenaide moravam numa casa pequena, o terreno também era
acanhado, e acabava numa cerca de arame na divisa de uma granja onde se
plantavam flores. Desde que tenho lembranças, tia Nair sempre gostou de hortas;
tinha uma plantação de tomate, cheiro-verde, salsinha, couve. O que chamava à
atenção, no pequeno lote, era uma laranjeira; não muito alta, poucos galhos,
terra árida. Eu pensava que a tia Nair era um pouco feiticeira; nunca vi um pé
de laranja carregar tanto, chegava à vergar os ramos.
Tia
Nair foi, e é a tia que todos sonham em ter; jamais esquecia um aniversário.
Quantos sabonetes ganhei de aniversário! Um dia perguntei para minha mãe se a
tia achava que eu era sujinho, minha mãe não soube responder. Hoje eu sei que o
sabonete era o que ela podia me dar, e que o melhor presente era nunca faltar
aos meus aniversários de criança. Aliás, o sabonete era meu único presente.
Nair foi, e é a tia que todos sonham em ter; jamais esquecia um aniversário.
Quantos sabonetes ganhei de aniversário! Um dia perguntei para minha mãe se a
tia achava que eu era sujinho, minha mãe não soube responder. Hoje eu sei que o
sabonete era o que ela podia me dar, e que o melhor presente era nunca faltar
aos meus aniversários de criança. Aliás, o sabonete era meu único presente.
Onde
a tia Nair comparecia, todos riam; piadista, até em velório dizia suas
gracinhas. Nadir, minha mãe, e Nair, minha tia eram amigas inseparáveis. Lembro
das duas na cozinha de casa, e tia Nair sem medir palavras; – “Nair! Olha o
guri. Não fale bobagem.”, pedia minha mãe. Tia Nair era rápida no gatilho; –
“Na rua, vai ouvir pior!”
a tia Nair comparecia, todos riam; piadista, até em velório dizia suas
gracinhas. Nadir, minha mãe, e Nair, minha tia eram amigas inseparáveis. Lembro
das duas na cozinha de casa, e tia Nair sem medir palavras; – “Nair! Olha o
guri. Não fale bobagem.”, pedia minha mãe. Tia Nair era rápida no gatilho; –
“Na rua, vai ouvir pior!”
Toda
a semana eu visitava a tia, fica horas conversando com ela; hoje procuro
lembrar de tanto converse! Que será que um menino de nove anos tinha de tão
importante para falar? Não recordo. Lembro do café da tarde; uma fartura para
os padrões de minha casa, tinha até geleia, e que ela mesma fazia.
a semana eu visitava a tia, fica horas conversando com ela; hoje procuro
lembrar de tanto converse! Que será que um menino de nove anos tinha de tão
importante para falar? Não recordo. Lembro do café da tarde; uma fartura para
os padrões de minha casa, tinha até geleia, e que ela mesma fazia.
Quando
eu morrer, vou passar um bom tempo no umbral; fui um guri muito aprontão. Numa
das visitas, tia Nair encheu uma sacola com laranjas, presente para a minha mãe
dividir com a filharada. Na minha volta para casa encontrei com uma senhora,
ela se encantou pelas laranjas. Quis comprar, e eu vendi. Com o dinheiro
comprei balas, e comi todas antes de chegar em casa. Tia Nair nunca contou para
a minha mãe, a arte que eu fiz; ela sabia o quanto eu aprontava, mas também
sabia que eu era um bom menino.
eu morrer, vou passar um bom tempo no umbral; fui um guri muito aprontão. Numa
das visitas, tia Nair encheu uma sacola com laranjas, presente para a minha mãe
dividir com a filharada. Na minha volta para casa encontrei com uma senhora,
ela se encantou pelas laranjas. Quis comprar, e eu vendi. Com o dinheiro
comprei balas, e comi todas antes de chegar em casa. Tia Nair nunca contou para
a minha mãe, a arte que eu fiz; ela sabia o quanto eu aprontava, mas também
sabia que eu era um bom menino.
Uma
vez fui encarregado de levar uma dúzia de bananas para o vô Juca, ele morava
bem longe de minha casa; no caminho, pensei; – “O vô está velho, não vai
conseguir comer uma dúzia de bananas”, e comi uma. “Onze bananas? Tá na cara
que comi uma!”, e comi outra. Resultado? Comi nove bananas, e entreguei três para
o vovô. Na semana seguinte o vô Juca foi visitar a minha mãe, e minha mãe
perguntou:- “Estavam boas as bananas, pai?”, gelei… O vovô respondeu; –
“Qual? As três que o Gastão me entregou?”, levei a maior surra, e eu só tinha
sete anos.
vez fui encarregado de levar uma dúzia de bananas para o vô Juca, ele morava
bem longe de minha casa; no caminho, pensei; – “O vô está velho, não vai
conseguir comer uma dúzia de bananas”, e comi uma. “Onze bananas? Tá na cara
que comi uma!”, e comi outra. Resultado? Comi nove bananas, e entreguei três para
o vovô. Na semana seguinte o vô Juca foi visitar a minha mãe, e minha mãe
perguntou:- “Estavam boas as bananas, pai?”, gelei… O vovô respondeu; –
“Qual? As três que o Gastão me entregou?”, levei a maior surra, e eu só tinha
sete anos.
Minha
prima Sandra diz que fomos abençoados; tivemos tias maravilhosas, humildes,
carinhosas, cheias de amor. Nos ensinaram a amar, a respeitar os outros, nunca
brigaram entre si, e como se queriam bem. Jamais ficavam mais de uma semana sem
se visitarem. Eram seis irmãs; três já partiram.
prima Sandra diz que fomos abençoados; tivemos tias maravilhosas, humildes,
carinhosas, cheias de amor. Nos ensinaram a amar, a respeitar os outros, nunca
brigaram entre si, e como se queriam bem. Jamais ficavam mais de uma semana sem
se visitarem. Eram seis irmãs; três já partiram.
Quando
visito minhas velhas tias, penso que elas não entendem o porquê de tanta
emoção, e do choro fácil que me vem; lembro dos dias felizes, todos juntos,
vovô e vovó, tios, eu e meus primos e primas correndo frente a casa. Realmente,
prima Sandra está certa; fomos abençoados, e continuamos à ser. Que saudade
daquele pezinho de laranja!
visito minhas velhas tias, penso que elas não entendem o porquê de tanta
emoção, e do choro fácil que me vem; lembro dos dias felizes, todos juntos,
vovô e vovó, tios, eu e meus primos e primas correndo frente a casa. Realmente,
prima Sandra está certa; fomos abençoados, e continuamos à ser. Que saudade
daquele pezinho de laranja!
Gastão Ferreira/2016
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.