Um cão Vegetariano                                      

         Um casal
de São Paulo, capital, esteve acampado por alguns dias aqui no bairro; eles são
veganos, e o seu cachorro também.  O nome
do cão é Victor Hugo, mas se pronuncia victôr rugô, é francês o bichinho. Eu e
meu primo Barrabás fomos visitar le chien Victor Hugo, e de cara já cometemos
uma gafe; levamos um osso de presente para um cão vegetariano; – “Que ser isso?
Parece ser um ossô, é um ossô?”
         – “Sim,
um osso de ovelha!”, disse Barrabás.  
         – “Que
coisa diabolique! Pobre ovelhá. Primeiro tiram a roupa da coitada, deixam a
bichinha pelada neste frio, depois assassinam a infeliz, fazem churrasco da
miserável, e você meus vizinhos, num gesto amigo, me trazem um osso do animal
sacrificado pela maldade humana…”
        
“Calma! Calma, vizinho. Falando deste jeito, até parece que fomos nós que
matamos a desventurada ovelha! Nós não sabíamos que você é vegetariano, aliás
eu nunca vi um cão que não fosse carnívoro…”
         – “Sou
criado em apartamento, minha dona é francesa e meu pai brasileiro, esta é a
primeira vez que ando solto na natureza, peço desculpas pelo meu comportamento
um tanto afetado, mas minha dona adora quando eu acuo em francês, e eu nem sei
francês…”
         Vi que
Victor Hugo, na verdade era um tremendo gozador, estava tirando uma da nossa
cara, achando que nós éramos cachorro de índio, e Barrabás nem se tocava; –
“Você está certo, Victor Hugo, a carne é fraca, afirma o meu dono, Pastor
Sillas, e eu confirmo…”
         – “Oh!
Meu jovem amigô Barrábás. Pode comer este meu prato de lentilhas com salsicha
de soja… Enquanto isto vou experimentar o ossô. Quero saber qual o sabor do
pecado!”
         Victor
fez mil perguntas; cachorro paulistano, cheio de querê-querê, falando difícil,
manhoso. Queria saber qual o bicho do mato que tinha a carne mais saborosa, e
se era possível fazermos uma caçada. Olhei para o primo Barrabás e dei uma
piscadela; – “Vamos nessa francês! Na vinda para cá eu vi um ouriço tentando se
esconder… Eta bicho bom de comer!”
         O casal
desmontou o acampamento jurando nunca mais acampar no mato, longe da
civilização, num fim de mundo; Victor Hugo foi atacado por um monstro cheio de
espinhos, está sedado, e vão levá-lo ao veterinário mais próximo. “Eis o que
acontece com quem anda com má companhia!”, disse a moça francesa. Ela não passa
de uma sem noção, uma mal informada, uma que pensa que nos sítios só tem
caipira, pois é le chien se ferrou! Au revoir Victor Hugo.
Omisso, um cão vingativo, mas nem tanto.
Gastão Ferreira/2016 
        
          
        

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