Tesouro enterrado

         “Que
saudade daqueles bons tempos!”, exclamou Dona Maria Fininha, “Era só sair à
noite e a gente se deparava com uma mula sem cabeça, um lobisomem, uma mulher
de branco, um boitatá e outras visagens que costumavam perambular pelas ruas e
becos da cidade.”
        
“Puras invencionices comadre Fininha, nosso povo via assombração até em lençol
esquecido em varal!” disse Zico Vai-Vai.
        
“Você que pensa, Vai-Vai! Eu sou pobre porque meu pai teve medo de uma
visagem.” Afirmou Dona Fininha.
         – “E como aconteceu isto, comadre?”                                      
        
“Minha família é natural do bairro de Subauma; na época eu estava com cinco
anos, mas lembro-me como se fosse hoje. Papai acordou apavorado e aos
gritos…”
        
“Meu Bonje! O que aconteceu?”
        
“Um pirata apareceu num sonho e mostrou a papai aonde havia enterrado um
tesouro e disse; – O ouro é meu, mas quero dar para você, só peço que não conte
para ninguém.”
        
“Nossa!” 
        
“Papai sempre foi um tanto medroso, quando criança foi enganado por um Saci e
ficou alguns dias perdido na mata e desde então passou a ter pavor do
desconhecido…”
        
“Não desconverse comadre! Volta para a história do tesouro…”
        
“Pelo o que o pirata mostrou, havia um grande tesouro dentro de uma panela de
barro, barras de ouro, pedras preciosas, moedas, coisas para deixar qualquer um
rico para sempre…”
        
“Caramba!”
        
“Papai tomou coragem e incentivado por mamãe, chamou meu irmão mais velho, o
Zébinho, que Deus o tenha! Para acompanha-lo …”
        
“Euzébio Fininho, meu amigo de infância …”
        
“Morreu mocinho, mordido por uma jaracuçu …”
        
“Volta para a história, comadre …”
        
“Papai e Zébinho passaram na venda do Seu Pedro Bode, e papai para tomar
coragem emborcou três pingas Paletó Vermelho e ficou um tanto falador …
Contou ao Seu Bode o que pretendia fazer naquela noite …”
        
“Mas o fantasma do pirata não tinha pedido segredo absoluto?”
        
“Sim! Não esqueça que papai era matuto, confiava em todo o mundo, e foi assim
que pôs a perder a grande fortuna.”
        
“O que aconteceu, comadre Fininha?”
        
“Eles foram ao local indicado pelo fantasma e cavaram fundo, encontraram a
panela de barro e nem chegaram a retirá-la do buraco. Quando estavam para abrir
a panela começaram a ouvir gemidos no mato e gritos horríveis de “é meu! É
meu!” e saíram correndo …”
        
“Nossa! O pirata se arrependeu de dar o tesouro?”
        
“Que nada compadre Vai-Vai! No outro dia papai voltou ao local e encontrou a
panela vazia e dentro só havia carvão, nem sinal do tesouro …”
        
“Não entendi!”
        
“O safado do Pedro Bode seguiu meu pai e meu irmão, esperou eles desenterrarem
a panela e depois armou o circo para afugentá-los. Retirou o tesouro e colocou
carvão dentro da panela.”
        
“Como ficaram sabendo disso?”
        
“Pedro Bode era um homem pobre, mas dois dias depois da descoberta do tesouro,
ele foi embora de Subauma e comprou uma rua de casas em Iguape; o homem ficou
rico de uma hora para a outra.”
        
“Que safado! Roubou o ouro do pirata e enganou o medroso do seu pai, comadre.”
        
“Pois é! Foi assim que aconteceu. Papai morreu pobre, eu sou pobre e a família
do Seu Pedro Bode é a mais rica da cidade …”
        
“Comadre! Nunca ouvi falar da família Bode, quem são eles?”
        
“Não contei? Eles trocaram de nome, Bode era o apelido lá no sitio.”
        
“Mas afinal, quem são eles?”
        
“Não posso contar! Tenho medo da vingança do pirata.”
        
“Que vingança, comadre?”
        
“A visagem falou para papai não contar para ninguém onde estava o tesouro e ele
falhou com o pirata.”
        
“É, a senhora tem razão! Bons tempos os de dantes; mula sem cabeça, lobisomem,
ouro enterrado … Que saudade da Iguape de antigamente!”
Gastão Ferreira/2016

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