Tartam

         As
montanhas da Juréia escondem alguns vilarejos perdidos entre sua densa
vegetação; solo sagrado dos tupis-guaranis, muitas lendas cercam a região;
terra de discos voadores, lobisomens e boitatá, ainda existem curupiras
passeando por lá. Ranchos distantes uns dos outros; agricultura de subsistência,
mandioca, inhame, batata doce, cará. Vida mansa de quem mora no mato; sem
eletricidade, sem telefone, fogão a lenha, água da fonte, peixe, tateto, jacu,
sabiá.
         O
menino apareceu do nada. Aparentava ter uns oito anos, roupas estranhas, cara
de fome, olhos azuis, cabelos castanhos. Dona Ritinha ficou intrigada; – “De
onde vem uma criança tão bonita e sozinha?”, foi na cozinha, catou uma banana
madura que o guri devorou. “É fome e das brabas!”, ela pensou. Chamou o filho,
o Francisco de doze anos, e indicou o garoto, dizendo; – “Cuida dele!”
         Francisco
sempre quis um irmão; tinha uma irmã de três anos, a Aninha, e da qual muito
gostava. Era bobinha, se assustava fácil, comia terra, e passava o tempo brincando
com as bonecas de sabugos de milho, todas suas amigas. Tirando esta cor meio
branquela, e o azul de uns olhos medrosos, até que o menino prestava para ser
seu novo irmão. A mãe era viúva, seu pai morrera há dois anos, e eles eram
iguais a bicho do mato, vivendo de caça miúda e de um roçado, e ele, Francisco,
tão novinho era o homem da casa.
         Francisco
mulato caiçara, matuto, mal sabia ler e escrever; seu professor fora o próprio
pai. Na casa existiam uma bíblia e outros dois livros, a Odisseia e a Ilíada,
que um homem chamado Homero escreveu, e que Francisco nunca leu. Foi difícil
conquistar a confiança do menino; ele não conseguia se expressar corretamente,
balbuciava palavras desconhecidas, mas acompanhava alegremente Francisco para
lá e para cá, seu nome era Tartam.
         Tartam
aprendeu rápido tudo o que Francisco sabia; conseguiu ler e escrever em pouco
tempo, decorou a bíblia e os outros livros. Francisco ficou sabendo da
existência de Aquiles, o maior de todos os guerreiros gregos, de Heitor, o
domador de cavalos e príncipe de Tróia, dos deuses olímpicos, dos ciclopes, dos
centauros, das sereias que enfeitiçavam os marinheiros, de Éolo o deus dos
ventos, e de Posseidon, o senhor do mar, através das leituras do irmão.
         Passavam
horas e horas conversando, Tartam se lembrava de muitas coisas. Francisco
achava que ele inventava; um mundo muito distante com duas luas, um sol azul,
animais que falavam, pessoas que se comunicavam por pensamento, um passeio com
os tios, uma viagem através da galáxia, uma pane na espaçonave, Tartam ejetado
do veículo, as montanhas, a fome, dona Ritinha, Francisco.
         Tartam
aprendeu a pescar, fazer arapuca, covo, puçá. Conheceu de perto uma onça, o
tapir, o bicho preguiça, o tamanduá; sabia qual pássaro estava a cantar, onde
os bugios brincavam, onde o tatu estava escondido, por onde andava o lobo
guará. Francisco aprendeu sobre as estrelas, plantas medicinais, a enxergar uma
pessoa por dentro, saber curar doenças, respeitar a natureza, amar os animais e
outras coisas mais.
         Dois
anos se passaram; “O tempo é relativo”, disse Tartam, “no meu mundo tenho
oitenta anos e sou uma criança, aos duzentos serei adolescente, aos dois mil
anos partirei para outro lugar.” Francisco achou que o menino estava à caçoar,
sabia que todas as noites Tartam passava horas e horas espiando o céu, sem nada
falar.
         Um
clarão iluminou a casa, Chester, o cachorro parou de latir, Tartam falou; –
“Meu tio veio me buscar, me encontrou! Nunca vou esquecer de você Francisco,
meu irmão! Um dia ainda vamos nos encontrar, em um outro mundo, outro tempo,
outro lugar… Gostei do breve passeio, e dele sempre irei recordar.”
         Francisco
está com trinta anos, mulato saudável, faz garrafadas, cura muita dor, vê
coisas que ninguém vê. Casou com Dorinha, seu filho mais velho se chama Tartam.
Nome estranho! “Nome do meu irmão que se foi”, diz Francisco. Suspira, olha
para o céu, e fala que existem mundos onde o sol é azul… Acho que endoidou!
Gastão Ferreira/2016   

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