Sua excelência, Seu Guaxira

         Vida
de cachorro é complicada. Nós os cães somos por demais ingênuos, acreditamos em
tudo o que o homem diz, e o bicho homo sapiens é muito sacana. Ontem recebemos
uma visita, seu Astolfo Guaxira.
         Seu
Astolfo, um homem humilde, seu bem mais valioso era uma velha bicicleta, um
amor de pessoa; dava bom dia até para urubu. Seu sonho era ajudar à todos, mas
não tinha condições. Ajudamos a criatura à se eleger, agora será o digno representante
da zona rural no centro do poder municipal.
         Quem
te viu, quem te vê! Chegou num carrão zero, nariz empinado, cara de nuvem. Não
cumprimentou ninguém, foi até o boteco do Seu Dito Mequetrefe e pediu uma dose
de uísque importado; pura esnobação! Seu Dito Mequetrefe nunca viu uma garrafa
de uísque na vida, e falou na lata:
        
“Guaxira, você sabe muito bem que só vendo Paletó Vermelho, coisa fina, coisa
de primeira…”
        
“Primeiramente, meu nome não é Guaxira! Se me chamar de novo por este apelido de
pobre, tasco um B.O. na tua cara. Quando se referir a minha pessoa, lembre-se,
sou sua excelência, o nobre Astolfo.”
        
“Meu Bonje! Que é isto, Astolfo? Quantas vezes te vendi fiado…”
        
“Outros tempos! E não esqueça da Sua Excelência antes de indagar qualquer
coisa. Então não temos uísque! Onde posso degustar um camarão na moranga?”
        
“Não temos destas comidas chiques aqui no sitio, excelência.”
        
“Viu como é fácil baixar a cabeça, e dizer excelência? Estou aprendendo rápido,
fiz um cursinho relâmpago em Campos do Jordão, pago pela nova empresa de ônibus
que assumirá no próximo ano a linha para São Paulo, até ganhei um carro zero de
presente.”
        
“Nem assumiu e já está pondo as garrinhas de fora! Onde está aquele homem
honrado, humilde, amigo? A pessoa à quem confiamos o nosso voto?”
        
“Morreu! E pode avisar à todos os miseráveis da zona rural que se alguém se
referir à minha excelência como Guaxira, adeus melhorias, adeus cestas básicas,
adeus ônibus… Manda ver uma dose de Paletó Vermelho, toma aqui dois Reais, e
pode ficar com o troco.”
        
“Mas a doze custa três Reais!”
        
“Então aceito como presente, nos veremos daqui há quatro anos… Fui.”
         O
nobre Astolfo ganhou muitos presentes; as crianças cantaram “saudades de
Iguape”, Dona Cotinha Gambá declamou um verso “as velhas árvores”, o violeiro
“el cantante do sitio” criou na hora uma nova música “obrigado excelência”, foi
quase um sarau poético e literário. Fizeram fila para beijar a mão de sua
excelência Astolfo… Coisa de humanos puxa sacos! Nós, os cachorros, fizemos
xixi nas rodas do carrão de Seu Guaxira, quero ver processar um cão! Será
difícil aturar Seu Guaxira por quatro anos, mas merecemos, quem mandou confiar.
Vivendo e aprendendo!
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2016
        

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