Seu Zé do Armário

         Tem
vez que agradeço a Tupã por ter nascido cachorro. O bicho homem é muito
estranho! Ele pode escolher qual caminho trilhar na vida, basta ter força de
vontade e persistência que um dia será médico, dentista, engenheiro, professor,
pintor, artista, qualquer coisa que ele queira. O sapiens é esperto, mas perde
muito tempo cuidando da vida alheia; Seu Zé Gildo que o diga.
         O
menino Marcinho, aquele que gosta de usar roupas femininas, teve um
desentendimento serio com o Seu Zé; o Seu Gildo começou a seguir o menino, e a
espalhar os encontros do garoto, tipo; – “Eu vi a Marcinha conversando com um taxista,
Marcinha piscou para o entregador de pizzas, Marcinha foi a cidade grande
encontrar as coleguinhas. Marcinha chorou, deve ter levado um fora.”
         Marcinho
não é de engolir desaforo. Entrou na vendinha do Seu Onofre, ela estava lotada,
pediu um quilo de milho, e ouviu nitidamente Seu Zé Gildo comentar; – “Vai
alimentar as colegas.”, o guri não deixou barato; – “Qual o seu problema, Seu
Gildo? O que eu fiz para o senhor? Qual o motivo de ficar me seguindo, cuidando
da minha vida? É inveja porque sou livre? É vontade de fazer o que eu faço? Me
poupe! Cansei.”
         Seu
Zé ficou vermelho. Os fregueses olharam feio para ele, Marcinho continuou; –
“Logo o senhor Seu Zé? Me chamar de Marcinha. Nosso mais famoso carnavalesco, o
mão de fadas! Arrogante, metido a besta, cheio de não-me-toques e sedento de
aventuras nos escurinhos da vida. Lobo conhece lobo! Pensa que não noto o seu
comportamento? Suas puladas de cercas são famosas, e seus olhos de cobiça não enganam
a ninguém. Sua falsa gentileza que o diga! Sei que o senhor não tem culpa de
agir assim, o senhor não teve escolha, o senhor nasceu com esta tendência, não
precisa me crucificar para esconder sua opção sexual, achando que as pessoas
não notarão as suas; sai do armário, e vai ser feliz! Me esquece.”
         Coitado
do Seu Zé Gildo! Ganhou um apelido, Zé do Armário. O homem entrou em depressão,
começou a falar sozinho, a encarar os passantes como se quisesse engoli-los com
os olhos, a fazer o sinal da cruz nas encruzilhadas, e o povo de olho, só na
moita. Quando os cavaleiros chegaram para a grande festa, pernoitaram no sitio.
Dona Cotinha de Jesus, ex Cotinha Gambá, jura de pés juntos que viu o Seu Zé do
Armário na maior paquera com um cavaleiro, o cavalariano foi passear de carro
com o Seu Zé. Aí tem! Cuidou tanto do rabo alheio que esqueceu que também tinha
um. Seu Zé Gildo demorou mas saiu do armário.
         Graças
a Tupã nasci cachorro! Um cão bem resolvido. Se as pessoas aceitassem suas
limitações, suas cruzes seriam mais leves, sem necessidade de máscaras, sem
fofocas, sem medo de ser o que são. Errar! Quem não erra? Homem ou mulher, todos
nascem para serem felizes, se realizarem em suas profissões. Todo o ser vivo
tem que ser respeitado. O importante é ser honesto, humilde, amigo dos amigos,
em paz consigo mesmo; Seu Zé do Armário demorou, mas aprendeu, tomara que seja
feliz!
Omisso; um cão rural.
Gastão Ferreira/2016   

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