Segurando a vela

         Antigamente
as boas famílias tinham uma preocupação com suas donzelas; zelavam para que
nada de anormal ocorresse durante a faze de namoro e noivado. Anormal incluía
carícias, beijinhos, falas impróprias, etc. Etc era o pior, e eu nunca tive a
curiosidade de perguntar o que era.
         O
namoro tinha hora e dia marcado, no máximo duas vezes por semana, e geralmente
na sala da casa. Meu primeiro trabalho como segurador de vela começou com o
namoro de tia Hilda e tio Romildo.
         Tio
Romildo era de origem alemã, tinha vinte e cinco anos, morava numa pensão, não
se conhecia a família. Vovó Julieta me instruiu muito bem: – “Fica de olho, e
me conta tudo.”, foi o que disse. Pagamento semanal em doces e frutas,
dinheiro? Nem pensar.
         Com
meus sete anos de idade comecei o aprendizado; não lembro mais do que
presenciei, mas recordo das muitas balas com que tio Romildo me presenteava, e
eu o admirava tanto que eu mesmo o escolhi para meu padrinho de crisma. Muitos
anos depois, quando moço, vim morar em São Paulo. Tio Romildo era mestre de
obras, e ele passou por São Paulo, foi até a pensão em que eu morava, e falou
com o proprietário, deu seu endereço no Sul, e pediu para entrar em contato
caso ocorresse algo comigo. Como não ser grato? Como esquecer?
         Aos
nove anos, nova contratação, ficar esperto com o namoro da tia Cotinha e tio
Danilo; tia Cotinha já passara dos trinta, mas era apenas uma guria
apaixonada… Todo o cuidado era pouco! Na sala duas cadeiras contra a parede
para o casal, frente aos dois outra cadeira, a minha.
         Foi
com o namoro da tia Cotinha e do tio Danilo que aprendi a namorar; – “Acho que
vai chover! ”, dizia tio Danilo. “Será? Eu não acho!”, exclamava tia Cotinha, e
dava um tapa na perna do tio Danilo. Tio Danilo replicava; – “Deus, é quem
sabe!”, e dava uma passada de mão no ombro da tia. E eu bem na frente deles,
olho no olho, encarando os dois. Jamais tiveram a coragem de fazer etc na minha
cara; vovó ficaria sabendo, e coitada da tia Cota.
         Com
tia Luizinha e tio Adélio foi diferente; tio Adélio era policial, e tia
Luizinha a filha mais nova de vovó Julieta e vovô Juca, eles me engambelavam,
me enganavam, eu estava com onze anos, e estava mais interessado no dinheiro da
vovó, o tempo das balas já passara; não estava nem aí para o que eles
aprontavam, acho que fizeram muitos etc.
         Foi
uma época de muito segurar de velas. A filha da vizinha estava namorando, e eu
fui contratado. Foi quando assisti muitos filmes, me empanturrei de pipocas. A
vizinha era extremamente rigorosa, exigia um relatório completo. Como contar
alguma coisa? O namorado me colocava na frente dos dois para caminhar, no
cinema eu ficava na primeira fila, e eles na última, e isto eu não podia
contar, pois perderia os filmes grátis. Um dia eles casaram, e foram felizes
para sempre.
         Depois
as coisas mudaram, minhas irmãs podiam namorar para dentro do portão de casa,
nunca para o lado de fora do portão; meu irmão Joãozinho era o espião, ele
tinha cinco anos, e muito apanhou por contar o que não devia. Dias felizes,
lembranças felizes… Tia Luizinha e tio Adélio partiram, tio Danilo e tia
Cotinha também. Padrinho Romildo, que hoje faria 86 anos, foi o primeiro à
empreender a longa viagem. Ele deixou um grande vazio; tia Hilda nunca esqueceu
seu primeiro e único amor, e eu sempre lembro do meu tio. Feliz aniversário,
padrinho.
Gastão Ferreira/01/11/2016
        
                                                                         

Deixe um comentario

Livro em Destaque

Categorias de Livros

Newsletter

Certifique-se de não perder nada!