Saidaí, o gato

         Todos
pensam que a vida no sitio é um doce sossego; nada feito! Tem gente chata, tem
bicho malandro, e muito mais. Quer um bicho pior do que um porco-espinho? É só
chegar perto, e se sai todo lanhado. Onça? Nem se fala! Eta animal para gostar
de atacar cachorro. Temos desavenças pessoais, preconceitos, picuinhas; que o
diga, Barrabás, meu primo e cão do Pastor Sillas.
         Barrabás
foi criado ouvindo as pregações do Pastor Sillas, e as interpretações bíblicas
de Dona Milla, esposa do religioso, e Dona Milla é terrível, pois vê maldade em
tudo, e em todos. Quem pagou o pato pela situação foi o gato Saidaí. O bichano
não é flor que se cheire, unhas afiadas, não dá moleza para passarinho.
         Dona
Milla acredita em muitas coisas; que a pomba branca é da paz, e que todo o gato
é amigo íntimo de satanás. O primo Barrabás crê cegamente em tudo que Dona
Milla diz. Resultado? Arrumou encrenca com Saidaí. Começou a perseguir o
felino; o gato estava se alimentando, Barrabás virava o pote de ração. O gato enterrava
o cocô, o cachorro desenterrava, o bichano matava um passarinho, o cão
afugentava o gato.
         Dava
pena de ver a tristeza de Saidaí; Barrabás não perdia oportunidade de perturbar
o coitado. O velho cão Feroz tentou interceder à favor do gato. Barrabás não
quis nem saber, encheu o sábio Feroz de desaforos; – “Gato é animal do demônio!
Temos que exterminar esta raça maldita.”
         – “O
gato também é uma criatura de Deus! Merece o mesmo respeito que qualquer ser
vivo. Sejamos generosos, Barrabás!” disse Feroz.
         – “Nada
feito! Dona Milla falou, tá falado; amarra ele Jesus! Gato preto é cria do
capeta.”
         – “Jesus
não quer que tenhamos ódio no coração, Barrabás, tome tento cachorro! Um dia a
casa cai.” Avisou o velho e sábio cão Feroz.
         Parece
que foi praga! Saidaí acabara de matar uma Cambacica, e Barrabás arrancou o
pássaro da boca do gato. O bichano subiu numa árvore, e Barrabás, se achando o
máximo se pôs a latir. Demorou! Saidaí pulou do galho bem encima de Barrabás,
cravou as unhas, mordeu, arranhou o cachorro. Dona Milla tentou apartar a briga
com uma vassoura, mas o gato é muito ágil, e ela só acertava no cão; quase
matou Barrabás de tanta pancada.
         Barrabás
passou um bom tempo bem arisco; entrou em depressão. O gato tomou conta do
pedaço; Dona Milla até pensou em envenenar o bichano, mas a ficha caiu, e não
teve coragem para tanto, apenas sedou o coitado, colocou num saco e jogou no
riacho; – “Que Deus o salve, se ele merecer.” Foi o que disse.
         Dona
Milla não sabe, mas Feroz salvou o gato Saidaí. Hoje ele tem outro nome,
Havengard, e mora na casa de madame Marcia Cristina de Oliveira Barros, Dona
Cricri. É muito amigo de Kyllan Boy, o gato Capado, mas seu melhor amigo é o
velho e sábio cão Feroz.
         Assim é
a vida aqui no sítio; tem gente boa, tem gente ruim. Tem bicho nobre, e tem
bicho malvado. Cheguei à conclusão que no mundo, tudo é igual, e o que importa
é ser feliz.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2016
        
          

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