Revelando o Revelando

         Finalmente
o meu primeiro Revelando São Paulo. Nem acredito! Eu, um cachorro do sitio, no
meio da fina flor da sociedade em flor. Meu dono caprichou no visual, usou as
botas compradas na última Festa de Agosto. Minha dona vestida numa saia longa e
colorida, foi confundida com uma cigana e leu a sorte de cinco pessoas, ganhou
cem Reais. Edicleusa estava um amor; cabelos bicolor, roxo e azul, uma
micro-saia de fazer inveja à bailarinas de circo mambembe, coisa de guria
pré-adolescente da zona rural. 
         Muita
comida diferente, doces caseiros, vinhos artesanais, músicas regionais, danças
típicas, reisada, batucada, fandango, viola caiçara, violões e rabecas.
Indígenas vendendo ervas medicinais, negociando arco e flechas, onças e
tamanduás, cobras e lagartos. Quilombolas expondo chapéus de palha, esteiras de
pirí, panelas de barro e muitas fotos gigantes para provar que realmente moram
no meio do mato.
         Artesanato
para todos os gostos e desgostos; alguns bem caros e outros, os mais vendidos,
super baratos. Compramos oito mini porquinhos de barro a R$3,00 cada um, serão
os futuros presentes de aniversários aos amigos e familiares.
         Passei
a maior vergonha! Conheci Michele, a cachorrinha mais fofa que já vi. Estava
dando uma de grã-fina, disse ser de raça francesa e toda hora falava; – “Oh mon
Dieu!”, ficou escandalizada porque roí um osso que um educado turista jogou
embaixo da mesa onde estava almoçando. A vergonha que passei foi porque
confundi um Rei Gongo com um árabe, também nunca vi um árabe e muito menos um rei
africano. A Michele ficou encantada com um resto de galinhada que achou numa
marmitex abandonada, coisa que como todo o dia no sitio; – “Comida importada!”,
falou.
         Minha
dona, muito religiosa, foi perguntar à que horas seria a santa missa; voltou
magoada, tinham trocado a santa da igreja por uma cover. As santas
organizadoras brigaram com o padre; o senhor bispo comprou a briga do padre.
Disse que a construção do novo templo para Nossa Senhora do Caribe, não terá
aprovação da santa madre.
         Os
políticos bem que tentaram tirar uma casquinha no Revelando, alguns subiram ao
tablado e declararam o imenso amor pela cidade. “Deus tá vendo!”, falou o meu
dono, “Que raça!”, não entendi!
         Me
enganei com Michele! Cachorra de rua; estava pagando o maior mico para a
rapaziada… Um dálmata, um pastor belga, um labrador. Sou um vira-lata do
sitio, tenho meus princípios, volto para casa de coração partido. A Edicleusa
também se deu mal, ficou quinze minutos falando com um manequim, achando que
era um garoto da cidade grande.
         Minha
dona usou os cem Reais que ganhou lendo a sorte para pagar um táxi; voltamos no
maior conforto. Agora é esperar as festas juninas, depois as quermesses, a
festa do Bonje, os vários comícios no sítio, eleição…  Muitos espetinhos de carne e frango me
aguardam.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2016     

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