A visão

         No sitio uma paradeira de fazer inveja
à Barra do Ribeira, nós os cachorros, eu e meu primo Baltazar, cão do Pastor
Sillas, deitados próximos ao fogão a lenha. A gata Milde espiando um sabiá que
cantava sempre a mesma música. O galo Agenor, o tarado, perseguindo as
franguinhas. Inverno rigoroso, dias nublados, vida mansa. De repente um
alarido, aleluias, e amarra Jesus; era Dona Cotinha Gambá quem gritava.
         Tudo começou quando Dona Cotinha foi no
mato catar gravetos para alimentar o fogo; estava distraída, um tanto sonolenta
pensando há quanto tempo não comia um bom prato de feijão. Por entre as folhas
das árvores raios de sol brincavam de se esconder, ela ouviu nitidamente o
chamado de um Saci; “tô aqui! Tô aqui!”. Olhou para cima, e viu um clarão;
seguiu a luz, e teve o primeiro saracoteio do dia. Na folha da bananeira Jesus
olhava mansamente para ela.
         A mulher teve um choque; conforme a
brisa soprava Jesus mexia com os braços, parecia chamá-la para um abraço. A
velhota pensou: – “Vou morrer, e ele veio me buscar.”, “fui escolhida para
morar com ele no paraíso”, “sou uma santa, e não sabia”. Em êxtase se jogou ao
chão; chorou, riu gargalhou. Suja de lama, envolta pelo silêncio; só ela e
Jesus. Nada! O filho do homem só a fitava, e movimentava os braços. Surtou,
saiu em carreira pela mata; pés lanhados por espinhos, cara lambuzada de barro,
vestido rasgado pelos galhos dos caraguatás, aos berros anunciou à vizinhança; -Ele
voltou! Ele voltou! Jesus me ama!
         O povo veio saber da novidade. Dona
Cotinha, trêmula, ofegante, ria e chorava. Ela viu Jesus na folha de uma
bananeira; “aleluia irmãos! Aleluia!”, graças ao Bonje, o padre Renato estava
no sitio, veio da cidade grande dar a extremunção ao velho Pedro Guaxinim, e
resolveu o assunto na hora; tacou um senhor tapa na cara da Dona Cotinha, e
gritou bem alto; – “É falta de homem! Falta do que fazer! Acorda mulher!”
         As pessoas não gostaram do
comportamento grosseiro do padre Renato. Uma garota gritou; “Lei Maria da Penha
nele!”, o padre encarou a guria e perguntou; – “O que você disse, saminina?”, “eu
disse; que pena dela!”. O Pastor Sillas chegou, e já queria afastar o demônio,
as irmãs do culto gritavam histéricas; – “Amarra ela Jesus! Amarra.” O barraco
estava armado, e sem solução. O menino Juquinha Preá perguntou aos presentes
por que não iam todos até a mata para conferir os fatos.
         Ofegante, de olho roxo devido ao sopapo
do padre, Dona Cotinha indicou o caminho. Não acharam a bananeira, mas
encontraram uma guimba de maconha. Que vergonha! Dona Cotinha viajou; viu
Jesus, se machucou. Ganhou até um novo apelido, Cotinha Gambá agora passou a
ser Cotinha de Jesus. A vida aqui no sitio é assim mesmo; calma, sossegada, e
sem novidades.
Omisso;
um cão rural
Gastão
Ferreira/2016  
           
        
          

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