A vingança do rei

Num tempo
muito, muito distante, num reino ainda mais distante, viveu um rei que teve
centenas de filhos… Como assim, centenas de filhos? Não contei que o rei era
um guerreiro? Não! Não, disse nada. O rei adorava tocar fogo numa cidade, matar
crianças e velhos, acabar com as plantações, sujar rios e lagos, em fim um
verdadeiro flagelo.
         Com
o tempo e as matanças, o povo descobriu o ponto fraco do rei; ele adorava
donzelas, raparigas para uma noite de luxuria, e sempre que partia presenteava
a amante com joias, carruagens, casa e comida. Nada mais justo, pois as
ex-virgens sempre ficavam grávidas.
         O
segredo da fraqueza real se espalhou por todos os recantos, e a coisa mudou;
mal avistavam a aproximação do exército, os pais levavam as filhas mocinhas
para recepcionar a tropa. Tiro e queda, o rei esquecia de saquear a cidade, e
partia para outro tipo de guerra.
         Numa
cidade à beira mar, o rei conheceu Magnólia; amor à primeira vista. Magnólia se
fez de difícil, percebeu a paixonite do rei, e se negava a fazer aquilo. O rei
babava, prometia mundos e fundos; deu uma repaginada na cidade, abriu estradas,
construiu casarões, praças, monumentos, uma ponte, e uma passarela. Gastou
quase tudo o que havia rapinado, Magnólia cedeu, e engravidou.
         Os
fofoqueiros Reais, também conhecido como assessores, enciumados com o poder da
Amante Real, levantaram a ficha da garota, descobriram que a ex-donzela nunca
foi flor que se cheira; dona de prostíbulo, vendia e alugava o belo corpo desde
a adolescência. Contaram ao rei, e o rei quase enlouqueceu; tão esperto e
enganado por uma piranha.
         Não
podia matar a moça que estava grávida de um filho seu, não podia incendiar a
cidade onde colocara praticamente todo o Tesouro Real na repaginação. Convocou
o exército, e partiu para a capital do reino, e tentou esquecer a meretriz, e
nunca ficou sabendo que tudo era invenção dos enciumados assessores, e que
Riobaldo seu filho cresceria saudável.
         O
tempo passou, o rei envelheceu.  “Povo
ingrato”, dizia o rei, “Que esperem para ver como a coisa vai piorar”. Estava
ali, morre não morre, mandou convocar todos os seus filhos; um deles seria o
seu herdeiro.
         O
palácio lotou de hospedes, era um tal de vossa alteza pra lá e pra cá, que
ninguém aguentava mais. Os herdeiros chamavam à atenção pelo comportamento;
incapazes de pedir um copo d’água sem esbofetear o servidor, passavam a mão
boba nas servas, trapaceavam nos jogos, bebiam feito gambá, tarados ao extremo,
verdadeiras bestas as Vossas Graças, a cara e os modos do pai; o pior deles era
Riobaldo, o filho da donzela Magnólia, a difamada.
         O
Bom rei, ali no seu leito de morte. Vingativo, cruel, desumano, doido para
ferrar de vez com todos os súditos. Mandou reunir a corte, a filharada, os
comandantes das tropas, a elite, e a ralé, e tascou seu último discurso; –
“Amados súditos, amados filhos, é de minha vontade que o próximo rei seja uma
pessoa digna, honrada, humilde, propenso à paz, amante do progresso, sem
vícios… Nosso reino merece o melhor; escolho o príncipe Riobaldo como meu
sucessor, que ele se aproxime…”
         Todos
os presentes choravam emocionados; finalmente alguém honesto para governar o
decadente reino, jamais esqueceriam as últimas palavras do bondoso soberano que
partia. Eles nunca ficaram sabendo, mas as derradeiras palavras do rei foram
outras. Quando Riobaldo recebeu o anel com o selo real, e abraçou o pai pela
primeira vez na vida, o rei o abraçou, e disse no seu ouvido; – “Bem-vindo!
filho da puta”, e morreu.
         Riobaldo
foi um péssimo rei; saqueou o Tesouro Real, acabou com a alegria da plebe,
secou a fonte, e partiu milionário para o esquecimento, feliz e com a
consciência tranquila. Um novo rei foi coroado, um rei vindo de muito longe;
com ele veio a prosperidade, mas aí aconteceu algo muito estranho… Bem! Esta
é uma nova, e longa história.
Gastão Ferreira/2016
        
        

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