A
plebeia

         Confesso
que cansei! Nem se quer tenho para onde correr; se voltar à casa de mamãe
Cananéia, depois de tantos anos, serei apontada como uma fracassada, pois a
velha não me perdoa os desaforos do passado. Se pedir socorro à filha mais
jovem, a querida e rica Maratayama, terei que entregar a coroa, os anéis, o
trono, e muito mais.
         Creio
que estou em depressão! Como não estar depressiva? Lixo sem recolher, filhos
passando necessidade, pontos comercias vazios no meu centro histórico. Pedintes
abandonados, e gritando pela madrugada. Lagamar assoreado, poucos foguetes.
         Poucos
foguetes? Meu Bonje! A coisa está realmente feia. Nunca fiquei neste silencio!
Como sobreviver por mais alguns meses? E tem gente postando; – “Quem não estiver
gostando da situação, tem um lugar chamado rodoviária na cidade… Vá embora!
Não queremos que denigrem a nossa bela cidade.”
         Tenho
a péssima impressão que quem realmente me valoriza são os meus filhos adotivos,
ninguém os jogou em meus braços, me escolheram como mãe; acreditaram em mim, e
continuam à acreditar. Muitos dos meus verdadeiros filhos partem para locais
longínquos, adotam outra terra-mãe, só espero que sejam bem tratados por lá.
         Na
verdade as críticas não me atingem; sou bela por natureza, possuo rios
piscosos, altas montanhas, pássaros de todas as espécies, fauna e flora
exuberante. Quem me maltrata? Alguém me quer plebeia? Com certeza não são os
filhos adotivos! Estes tinham milhares de reinos para escolher aonde viver, e
aqui vieram fazer a sua morada.
         Quem
me quer plebeia? Meus filhos naturais? Não pode ser! Eu os vi crescerem,
conheci todos os seus antepassados, ri e chorei com suas dores, e os seus
amores. Acalentei seus poucos sonhos, fui mãe generosa, dei meu corpo como
alimento, e no meu solo guardarei para sempre seus corpos mortais. Acredito que
eles me amem, tenho que acreditar! São eles que escolhem seus senhores, são
eles que beijam a mão de príncipes e tiranos… Meus amados filhos! Cúmplices
da minha ruína.
         Sei
que a depressão passará! Não é a primeira, e nem será a última. A dor persiste!
Sou mãe, e quero o melhor para todos os meus filhos. Sei que um dia minhas
crias acordarão para a dura realidade. Qual a dura realidade? A única que
existe, que saibam que só depende deles a minha prosperidade, a minha realeza,
e a realização de todos os seus bons sonhos.
         Acordem,
filhos meus! Adotivos ou não, eu os amo por igual. Nada de brigas, desavenças,
picuinhas. Vamos pensar no bem estar geral, vamos fazer a escolha de viver com
dignidade, e não apenas sobreviver. Não desanimem, a escuridão está perto de
ser vencida, uma nova alvorada se aproxima, e todos sairemos vencedores.
         Nossa!
Acho que a deprê passou. Jamais serei plebeia, um novo tempo está para iniciar.
Espero que o sofrimento tenha amadurecido à todos nós, que possamos ser
realmente felizes, num lugar abençoado entre a montanha, e o lagamar, em paz, e
na espera de dias melhores.
Gastão Ferreira/2016

 

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