Seu Leandro da Barra
                Neste final de 2019, Benedito Leandro Martins,
completará 93 anos, ele veio ao mundo em 09/12/1926; Seu Dito Leandro pertence
ao tempo de dantes, nasceu a margem do rio Suamirim no Pontal da Barra, num
local chamado Capivari, numa casa antiga com senzala e de grossas paredes
cimentadas com conchas retiradas de sambaquis e moídas com óleo de baleia, a
Casa Grande não mais existe, ela foi famosa durante todo o período escravocrata
devido à grande quantidade de cativos que abrigou no local por muitas décadas.
         Aos
oito anos de idade, Seu Dito já trabalhava; sabia fazer esteiras de pirí e
trançar a palha para a confecção de chapéus, catava gravetos no mato para
alimentar o fogão a lenha feito de barro e também carpia com uma pequena enxada
a horta familiar.
         Pontaria
certeira, era bom no bodoque; naquele tempo ainda existiam muitos animais
silvestres para os lados da atual Barra da Ribeira, que na infância e adolescência
de Dito Leandro se dizia Pontal da Barra; um pequeno vilarejo caiçara com vinte
casas de pau a pique e duas vendas, a de Manoel Antônio de Morais, conhecido
como Maneco do Crides, e o armazém de Paulo Borges.
         O
bairro possuía muito gado, e havia quatro canoas de pesca, estamos falando da
Barra do Ribeira do ano de 1936; uma vez por ano acontecia uma missa na capela
do antigo cemitério do Prelado, sempre na data de 12 de dezembro, dia de Santa
Guadalupe, primeira padroeira do bairro, e que depois perdeu o posto para São
Pedro, o protetor dos pescadores.
         Até
os dezesseis anos, Dito Leandro trabalhou apenas na roça; plantava, carpia,
colhia e também pescava. Nunca teve uma canoa de sua propriedade, mas pescava
de tripulante ou de parceiro dos donos das canoas, mar e rios não faltavam;
Suamirim, Costão da Jureia, Rio Ribeira, Rio das Pedras, Rio de Uma, Rio
Pequeno, Rio Itimirim.
         Peixe
tinha de sobra e das mais variadas espécies; Mandi, Robalão, Pescada, Caranha,
Prejereva, Miraguaia, Traíra, Cascudo, Cará, Piramboia, Tagibocú, Lesbão,
Tuvira, Tainha, Parati, Vivoca, Jundiá, Nhundiá, Nhacundá, e muitos outros pescados
no mar.
         Benedito
desde novinho foi arrimo de família, passava um tempo no sitio, cuidando da
plantação, e outro no bairro, arrumando telhados, sua vida era trabalhar; casou
aos 32 anos, e Antônio Peixeiro é filho do seu primeiro casamento, sendo Maria
e Vilma as filhas do segundo casamento, ele tem quatro netos e três bisnetos.
         Dito
Leandro plantou mandioca, arroz, milho, batata doce, feijão, taiá, couve,
cheiro-verde, salsinha. Criava galinhas e porcos, naqueles tempos ainda não
existia em Iguape óleo vegetal, e a comida era temperada com banha de porco; a gordura
era guardada em grandes latas, junto a pedaços da carne já frita que
conservavam na banha, pois sem freezer ou geladeira, era assim que as
comunidades caiçaras mantinham a carne para não estragar, podendo também ser salgada
ou defumada sobre os fogões a lenha; a defumação era prática comum em época de
piracema da tainha e dos grandes bagres da foz do Rio Ribeira.
         A
fome era algo desconhecido, pois além dos peixes e dos vegetais, grãos e
frutas, havia os animais silvestres; tateto, quati, bugio, macaco prego,
capivara, paca, cutia, tatu, raposa, guaxinim, guaxica, anta, jacus, galinhas,
nhambus e outros. Se desconhecia o politicamente correto, e muitos pássaros
faziam parte do saudável cardápio caiçara.
         A
vida social era bem animada; muitos bailes em casas de família, festa junina,
Santo Antônio, São Pedro, São João, Santa Isabel, padroeira do Rio de Una. Os
bingos se chamavam leilão, e os prêmios eram leitões vivos, peixe assado, bolos
de fubá, frango assado. Nestas quermesses o divertimento das mocinhas namoradeiras
era mandar prender os rapazes, por quem estivessem interessadas numa cela feita
de bambu, e eles pagavam mil Réis para obter a liberdade; teve uma vez que
Benedito Leandro ficou quase a noite toda preso, ainda bem que no final da
festa apareceu um amigo e pagou a sua saída da cadeia.
        
         Nos
bailes se dançava o fandango ao som das violas caiçaras; os grandes violeiros
que marcaram época no Pontal da Barra foram, Jeremias Moraes, Eurico Messias,
Estevam da Silva, Sebastião Justina, Maneco Crides. O arrasta-pé começava as
19;30 e terminava às 6;00 da manhã; a única bebida servida no salão era a
cachaça. Os mocinhos e mocinhas menos comportadas namoravam por detrás das
grossas cortinas, achando que ninguém estava reparando.
         O
antigo Pontal da Barra, hoje bairro Barra da Ribeira teve seu surto de
desenvolvimento e progresso após os anos 70, foi quando as casas de madeira
desapareceram, os turistas começaram a comprar as casas dos pescadores e a
construir em alvenaria, e também a montarem comércio no bairro, mesmo na
atualidade 90% do comércio local está em mãos de não caiçaras; com tanta
melhoria no bairro, Seu Dito ganhou muito dinheiro, foi considerado o melhor
dos mestres em telhados, hoje ele está aposentado; passou a vida trabalhando, tem
a saúde perfeita, excelente memória, alto astral, gosta de contar e ouvir
causos, segundo as filhas Maria e Vilma, foi e é um exemplo de bom pai, homem
digno e que soube transmitir seus nobres valores aos três filhos; fez centenas
de amigos, é estimado no bairro e se sente agradecido pela vida que Deus lhe
deu. Que tenha muita paz, saúde e alegria em sua vida plena de realizações, Seu
Benedito Leandro Martins; um exemplo de simplicidade e fé, alguém que faz a
diferença na Barra do Ribeira.
Gastão Ferreira/2019

 

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