Quase fugiu com o
circo
         Nhanhá
Quase Bisca, marcou época na Princesa do Litoral, moça prendada, foi criada
para casar e ter muitos filhos; suas três irmãs se transformaram em ótimas rainhas
do lar, e Nhanhá quase chegou lá, eis o porquê do apelido Quase, ela passou
perto, mas não marcou presença.
         Foi
por esse tempo que a bela Iguape ficou conhecida como a Princesa; era um tal de
Princesinha para lá e para cá, tudo frescura pois na ficha da meiga Iguape
constava um monte de filhos, e cada um com pai diferente; Registro, Sete
Barras, Barra do Turvo, Pariquera, São Lourenço, Juquiá e mais alguns, e todos
frutos de encontros com aventureiros, um péssimo exemplo para as donzelas da
época.
         Nhanhá,
acreditava que ser princesa era tudo de bom; comer do melhor, dormir numa cama
fofa com colchão de palha e travesseiro recheado de marcela cheirosa. Sair à
passeio numa cadeirinha carregada por quatro escravos, ter um banquinho com
almofada só seu na igreja… Ah, a famosa vida de princesa! Quem não queria
ter?
         O
sonho de mocinha nunca se realizou, seu pai era o único que a chamava de “minha
Princesa”, e as três irmãs morriam de inveja, pois além de muito inteligente, a
menina sabia de cor e salteada a tabuada inteirinha; nossa! Que memória. Também
aprendeu a juntar as letras do alfabeto, e ficou encarregada de ler o jornal
para a família; é verdade que era péssima em acentuação. A única vez em que
participou de um sarau literário, a exibida quis aparecer para o público e leu
um poema pastoril intitulado “Os dois cágados”, foi só abrir a boca e foi
expulsa do recinto; “-  Agora lerei para
os amáveis ouvintes, uma poesia que está fazendo o maior sucesso; – Os dois
cagados.”, foi a vergonha do mês e por um bom tempo ficou conhecida como Nhanhá
Cagada.
         Quando
o primeiro circo apareceu na cidade, Nhanhá contava quinze primaveras. O circo
chegou de navio, toda a cidade estava no cais e as pessoas ficavam boquiabertas
com a passagem de animais nunca vistos; elefante, leão, girafa, um urso pardo.
Um moço de cartola e cara pintada se esgoelava de gritar; – “O palhaço, o que
é?”, e os companheiros de picadeiro, respondiam; – “É ladrão de muié!”
         A
molecada passou a brincar de circo e sempre gritavam o refrão; “- O palhaço, o
que é?”, “É ladrão de muié!”, muitos e muitos anos depois, trocaram o refrão
por um mais famoso; “- É o boi! É o boi! É o boi!”
         Aquele
primeiro circo marcou época, coisa rara, novidade, os mais abastados convidavam
os artistas para convescotes e jantares com frutos do mar; as bananas do mar de
Dona Mercê Fortes Alves ficaram famosas. Os mais pobres também tiravam uma
casquinha da trupe circense; pagavam doses e mais doses de pinga com cataia aos
visitantes, que bêbados contavam mil piadinhas impublicáveis, e de graça.
         Nhanhá
se apaixonou perdidamente pelo palhaço Arruaça; bicho sem vergonha o palhaço!
Engambelou a rapariga com mil história, mil versinhos; todo o dia trazia uma
flor de presente, e sempre dizia; – “Uma flor, para uma flor!” Nhanhá achava o
máximo e já estava se aprontando para fugir, quando um outro navio aportou, e
nele vinha de mala e cuia uma moça e duas crianças; a mulher e os filhos do
palhaço Arruaça.
         A
briga foi feia, muita baixaria rolou; nem tanto da parte de Nhanhá, que não
passava de uma jacu, mas a esposa do palhaço era mulher criada em cidade
grande, desbocada e sem papas na língua e chamou Nhanhá de Quase Bisca na
frente de todos na praça da matriz, e o apelido pegou. Foi então que Nhanhá
resolveu… Mas essa já é outra história.
Gastão Ferreira/2019    

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