Os Bárbaros chegaram
Na
minha infância, na metade do século XX, com televisão preto e branco, sem
videogames, sem pen drive, poucos filmes coloridos, acordávamos com o cantar do
galo, café preto, pão feito em casa, e nada de ônibus escolar; todo o mundo ia
a pé para o colégio.
minha infância, na metade do século XX, com televisão preto e branco, sem
videogames, sem pen drive, poucos filmes coloridos, acordávamos com o cantar do
galo, café preto, pão feito em casa, e nada de ônibus escolar; todo o mundo ia
a pé para o colégio.
No
colégio, todos em fila para cantar o Hino Nacional e hastear a bandeira, depois
se passava por uma inspeção para aprovar a higiene pessoal de cada aluno;
roupas limpas, cabelos penteados, chinelos em ordem. Entrávamos na sala de aula
e em silêncio se esperava a professora entrar, então todos se levantavam e
diziam; – “Bom dia, professora”.
colégio, todos em fila para cantar o Hino Nacional e hastear a bandeira, depois
se passava por uma inspeção para aprovar a higiene pessoal de cada aluno;
roupas limpas, cabelos penteados, chinelos em ordem. Entrávamos na sala de aula
e em silêncio se esperava a professora entrar, então todos se levantavam e
diziam; – “Bom dia, professora”.
Aluno
bagunceiro, castigo na hora; reguadas nos dedos, a palmatoria já tinha sido
abolida na minha época, mas conheci a danada, a mão ficava toda furada e doía
por demais. Também, sem dó nem piedade colocavam as crianças arteiras
ajoelhadas sobre grãos de milho, ou atrás da porta, ou de braços abertos… E o
bullying rolando, quantas vezes tive de escrever mil vezes; -Não devo brigar
com o meu colega.
bagunceiro, castigo na hora; reguadas nos dedos, a palmatoria já tinha sido
abolida na minha época, mas conheci a danada, a mão ficava toda furada e doía
por demais. Também, sem dó nem piedade colocavam as crianças arteiras
ajoelhadas sobre grãos de milho, ou atrás da porta, ou de braços abertos… E o
bullying rolando, quantas vezes tive de escrever mil vezes; -Não devo brigar
com o meu colega.
O
recreio era feito para brincar, algumas escolas serviam uma sopa de fubá com
couve, todos tomavam e ninguém reclamava. Na cantina da escola se vendiam doces
e balas; quem tinha dinheiro comprava, quem não tinha ficava só se lambendo. Na
saída, no regresso ao lar, as ofensas eram resolvidas, e tudo no tapa! Coitado
do infeliz que arriscasse pegar em um pedaço de madeira, ou numa pedra para
bater no desafeto, ficava marcado como covarde por muitos e muitos anos.
recreio era feito para brincar, algumas escolas serviam uma sopa de fubá com
couve, todos tomavam e ninguém reclamava. Na cantina da escola se vendiam doces
e balas; quem tinha dinheiro comprava, quem não tinha ficava só se lambendo. Na
saída, no regresso ao lar, as ofensas eram resolvidas, e tudo no tapa! Coitado
do infeliz que arriscasse pegar em um pedaço de madeira, ou numa pedra para
bater no desafeto, ficava marcado como covarde por muitos e muitos anos.
A
tarde, depois de fazer o dever de casa, saíamos em bando para assaltar o trem
pagador, matar bandido, torturar índios, amarrar ladrões em árvores; poucos,
talvez os filhos dos ricos, possuíam revólver com espoleta, a maioria das armas
eram de madeira, se bem que para brincar de “mocinho e bandido” todas as armas
eram válidas; estilingue, espada de madeira, arco e flecha.
tarde, depois de fazer o dever de casa, saíamos em bando para assaltar o trem
pagador, matar bandido, torturar índios, amarrar ladrões em árvores; poucos,
talvez os filhos dos ricos, possuíam revólver com espoleta, a maioria das armas
eram de madeira, se bem que para brincar de “mocinho e bandido” todas as armas
eram válidas; estilingue, espada de madeira, arco e flecha.
Nem tudo era sangue e crime, sobrava
tempo para jogar taco, bolinha de gude, soltar pipa, ler gibi. O interessante é
que nenhum dos meus amigos de infância era ladrão, e todos eram pobres, pobres
de maré, maré… Respeitávamos os mais velhos, palavrão somente longe de casa,
e apenas entre nós.
tempo para jogar taco, bolinha de gude, soltar pipa, ler gibi. O interessante é
que nenhum dos meus amigos de infância era ladrão, e todos eram pobres, pobres
de maré, maré… Respeitávamos os mais velhos, palavrão somente longe de casa,
e apenas entre nós.
Crescemos,
nos separamos, a vida continuou; daquele pessoal nunca fiquei sabendo de um
deslize mais grave. Hoje, já idoso, eu olho sobre o meu passado e comparando
com os dias presentes me indago; – “Eu nasci num Brasil pobre, em meio a
pessoas pobres; nenhum parente tinha carro, televisão, casa na praia, ou
viajava para o exterior. Comia o que meus pais podiam pôr na mesa, usava um
sapato até a sola furar, as roupas só eram trocadas porque a gente crescia,
apanhava da mãe, ficava de castigo por muito tempo, mas amava a mãe acima de
tudo, perdoava fácil, ria muito, era feliz.
nos separamos, a vida continuou; daquele pessoal nunca fiquei sabendo de um
deslize mais grave. Hoje, já idoso, eu olho sobre o meu passado e comparando
com os dias presentes me indago; – “Eu nasci num Brasil pobre, em meio a
pessoas pobres; nenhum parente tinha carro, televisão, casa na praia, ou
viajava para o exterior. Comia o que meus pais podiam pôr na mesa, usava um
sapato até a sola furar, as roupas só eram trocadas porque a gente crescia,
apanhava da mãe, ficava de castigo por muito tempo, mas amava a mãe acima de
tudo, perdoava fácil, ria muito, era feliz.
Hoje,
as crianças já nascem no maior conforto, meninos de três anos usando roupa de
grife, adolescentes usando todas as drogas possíveis, sexo fácil, comida e
bebida à vontade, internet ilimitada, o mundo todo num computador, mais de
1.000 amigos. Como se comunicar com mil amigos? Compartilhar uma figurinha não
é sinônimo de amizade! Os jovens estão cansados de serem jovens, permanecem
jovens até os 40 anos. Eu contava os dias para fazer 21 anos e poder assistir
filmes proibidos; santa inocência!
as crianças já nascem no maior conforto, meninos de três anos usando roupa de
grife, adolescentes usando todas as drogas possíveis, sexo fácil, comida e
bebida à vontade, internet ilimitada, o mundo todo num computador, mais de
1.000 amigos. Como se comunicar com mil amigos? Compartilhar uma figurinha não
é sinônimo de amizade! Os jovens estão cansados de serem jovens, permanecem
jovens até os 40 anos. Eu contava os dias para fazer 21 anos e poder assistir
filmes proibidos; santa inocência!
Hoje
os tempos são outros, o futuro chegou, e com ele o progresso, os avanços da
medicina, a facilidade de locomoção, mas o mundo do futuro nos afastou dos
amigos, das conversas sentados na calçada, dos namoricos nas pracinhas, das
serenatas, das tardes de sol e pé no chão. Hoje vivemos atrás de altos muros,
quem pode tem segurança particular, carro blindado, e por trás dos vidros
blindados espiamos a vida passar, pois os bárbaros chegaram e nos dominaram.
os tempos são outros, o futuro chegou, e com ele o progresso, os avanços da
medicina, a facilidade de locomoção, mas o mundo do futuro nos afastou dos
amigos, das conversas sentados na calçada, dos namoricos nas pracinhas, das
serenatas, das tardes de sol e pé no chão. Hoje vivemos atrás de altos muros,
quem pode tem segurança particular, carro blindado, e por trás dos vidros
blindados espiamos a vida passar, pois os bárbaros chegaram e nos dominaram.
Gastão Ferreira/2019

Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.