O último lobisomem da
vila
         Lycaon,
rei da Arcádia, era filho do herói grego Pelasgo e de Melibea, que era filha do
deus Oceano; excessivamente religioso, tinha o costume de sacrificar à Zeus
todo o visitante que aparecia em seu reino. O que ele não sabia era que estava
infringindo a mais sagrada das leis, a lei da hospitalidade. Zeus foi conferir
o que estava acontecendo, e assim, acabou convidado para um banquete onde lhe
foi servido carne humana, e então, o pai dos deuses e dos homens, furioso,
transformou Lycaon em lobo, o primeiro lobisomem da Terra.
         Bem,
na verdade este fato ocorreu no nascedouro da raça dos homens, há milhares de
anos; dizem que alguém só pode virar lobisomem de duas maneiras, por maldição
ou por contado sanguíneo. Um homem teria de ser amaldiçoado por um deus
ancestral, e até aonde se sabe, o único deus antigo que sobreviveu é Tupã,
então é mais fácil ser mordido, arranhado, ferido por um outro lobisomem, do
que ser amaldiçoado.
         Jão
era menino valente, ladrão de palmito, caçador de animais silvestres,
passarinheiro, politicamente incorreto. Com estas práticas caiçaras, ofendeu
Tupã, aliás, ele Jão nem sabia que Tupã existia, mas mesmo assim foi
amaldiçoado; coisa rara, pois Tupã sempre teve a fama de ser bondoso, mas
naquele dia estava de ovo virado e resolveu transformar o menino Jão em uma
jaguatirica; – “Não, meu pai! Jaguatirica, não.”, falou o Curupira, “transforma
o guri num lobo!”, “Num lobo! Nem existe lobo em Pindorama.”, disse Tupã. “Pai
de Todos, se transformá-lo em jaguatirica, o moleque será um jaguatiromem, mas
se transformar em lobo, será um lobisomem…”, ponderou o Curupira. “Tem razão,
meu filho de pés virados, pega melhor lobisomem; pois que seja, será um lobo
sempre que for lua cheia.”, determinou Tupã. 
         Para
Jão foi ótimo virar lobisomem, quando era lua cheia saía para caçar, e nunca
faltou carne em sua despensa; era carne de paca, capivara, jacaré, tatu, cutia
não, tateto, jacu, anta e bugio. As meninas da vila achavam que Jão era um
excelente partido, mas seu grande amor sempre foi a menina Cotinha, e foi com
ela que ele se casou.
         Vieram
os filhos, um menino e uma menina; o menino de nome Leôncio e a menina Laira
Cristina, nome de uma heroína do filme “A Princesa do Litoral e os Piratas da
Barra”, que Dona Cotinha achou linda e virtuosa. Laira Cristina estudou, fez
veterinária e tem consultório na cidade, raras vezes visita os pais no sítio, tem
dois filhos que adoram o tio e os avós que moram no meio do mato, ela casou com
um funcionário de carreira da municipalidade, um fiscal de obras, e que leva
cada carreira toda a vez que tenta multar alguém… Só por Deus!
         Jão
e Leôncio nem parece pai e filho, pois Jão estacionou a aparência física nos
vinte e poucos anos; quando Leôncio fez dezoito anos, Jão tomou a decisão de
transformá-lo em lobisomem. Estava cansado de sair sozinho para caçar em noites
de lua cheia, necessitava de um companheiro de aventuras, queria dividir com
alguém os mistérios das matas, o silêncio das florestas, o cantar dos pássaros,
e ninguém melhor do que um filho para compartilhar do seu segredo.
         Não
foi difícil convencer Leôncio à participar da caçada, desde criança, o sonho do
menino foi em se juntar ao pai no escuro da mata, esperar na ceva o tateto e a
paca. Aquela noite foi fatal; lua cheia brilhando no céu, Leôncio sozinho na
floresta, esperando o pai que fora até a margem do rio… Um estalo seco, olhos
vermelhos na escuridão, um uivo de lobo, um salto no vazio e uma mordida
certeira… Leôncio será conhecido como o último lobisomem da vila; o causo
está apenas começando!
Gastão Ferreira/2019

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