Observatório Espacial Não
Identificado

( OBSENI)

         Finalmente
a Princesa do Litoral acordou de seu longo e profundo sono, acabou a fase “Bela
Adormecida”, e se dá início à um período de prosperidade jamais visto. As 7
Maravilhas Iguapense do passado ficaram para trás em definitivo, eram elas; as
Ruínas do Itaguá, O Sobrado dos Toledo, O Palacete Moutinho, o Correio Velho, A
Porcina, O Hotel São Paulo, A Casa da Sopa.
         É
verdade que muitas das Maravilhas que por aqui fizeram morada foram esquecidas
ou perdidas, surrupiadas ou destruídas. Quem não se lembra do belo Coreto da
Praça da Matriz? E do magnifico barco presenteado à Princesa pela Marinha do
Brasil, e que virou depósito de lixo e motel de sem-teto? Sim, também é bom
recordar do antigo Mercado Municipal, ponto de encontro por várias décadas de
gerações de caiçaras. Nada de pôr para escanteio o Leão da Passarela e o Anjo
de Mármore de belas asas que morava frente a capela do cemitério. O Leãozinho
do Porto do Ribeira que um bêbado matou a marteladas, é bom não esquecer que
uma imagem de Nossa Senhora do século XVII simplesmente mudou de freguesia sem
deixar endereço. Existem obras que jamais iremos conhecer; os velhos
chafarizes, os pelourinhos, as senzalas, a prataria da Igreja das Neves.
         Como
todos sabem, Iguape é muito rica, e assim ela pode se dar ao luxo de jogar no
lixo o seu passado multissecular; por aqui já passaram a Capitania dos Portos,
o Instituto Florestal, a Maternidade Feliz Lembrança, a SOS Mata Atlântica, um
convento de freiras professoras (onde é hoje o Silvi Hotel), um Vice-consulado
Português, algumas fábricas, entre elas a Matarazzo, um grande porto,
estaleiros, empresas exportadoras de arroz, uma fundição de ouro, e por aí vai
nossa longa e feliz história.
         O
bom de tudo isso é que o passado está morto e enterrado; todos os nossos
corruptos e corrompidos estão livres, leves e soltos, de bem com a vida e
dinheiro no banco, se achando as almas mais honestas e humildes da comunidade,
olhando o zé povinho de cima e com cara de nojo. Todos aparentemente
arrependidos das pilantragens e entregues ao amor do Mestre Jesus, que lavou
suas negras almas, purificando os seus corações de pedra, mas que não informou aos
ladrões e corruptores que somente com a devolução das rapinas e saneamento do
mal praticado, eles, os filhos bem-amados da Princesa conquistarão a paz, e
terão direito ao reino dos céus, mas isto também é outra história, e não é da
minha conta.
         A
fase “Pós Bela Adormecida” chegou para fazer a diferença; prédios novos na
saúde, ruas asfaltadas, muita festa da tainha, do robalo, do porco-do-mato, do
mandi, do bagre africano, do sorvete, parada gay, motociclismo, motocross,
festival de pesca, festival de inverno, verão e primavera, festa do pitu e do
lagostim, com direito a dança da chuva em nossas aldeias, bailes de violas na
zona rural e cantadores do vale recebendo altos cachês. E a grande novidade; o
Observatório Espacial Municipal.
         O
caiçara é um pândego, quando notaram a nova e modesta construção, onde antes
era o banheiro municipal, ao lado da passarela, no bairro do Rocio, espalharam
que era um puxadinho do Museu do Amanhã, um cover do famoso prédio do Rio de
Janeiro; ficaram meses com este boato ridículo, e o povão curioso para
desvendar o último mistério da Princesa. Não consta o nome do arquiteto
responsável, nem o custo da obra esquisitona, nem a serventia do acanhado
imóvel, mas como está no mesmo lugar do Mictório Público, todos achavam que
seria um Banheiro Público piorado.
         Impossível
ser um banheiro público, não possui a marca registrada do famoso “SELO WILSON
DE QUALIDADE”; altos degraus para alguém com cólicas escalar, sem amurada para
o lado da água, qualquer bêbado poderá cair e quebrar o pescoço, ou os meninos
do bem, baseados na experiência, perseguirem borboletas azuis altas horas da
noite e se jogarem no vazio.
         Nãnãnâo…
A NASA confirmou! O prédio é um modesto Observatório Espacial Não Identificado,
e servirá para monitorar os pousos das naves alienígenas no Valo Grande. Nem
nós, moradores da cidade, sabíamos das visitas dos extraterrestres, mas o
pessoal da NASA é muito esperto, e descobriu que as muitas tentativas de morte
da estátua do pescador, as constantes retirada das madeiras da ponte que liga o
porto da balsa ao flutuante, o roubo de alguns barcos de pesca e de algumas
redes, e outras coisas estranhas que ocorrem na orla do valo, são coisas de ET.
         Vamos
aguardar a inauguração da obra, e aí sim teremos a certeza de sua finalidade.
Gastão Ferreira/2019 
          
          
        

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