O Saci da Enseada
         Iguape,
também conhecida como Princesa do Litoral Sul, situada a margem do Mar Pequeno,
no estuário do Rio Ribeira, uma das cidades mais antigas do Brasil, pois antes
mesmo do descobrimento, Maratayama (Ilha Comprida) já era habitada. Os
formadores de sambaquis há mais de 6.000 anos pescavam em nosso lagamar, e há
2.000 anos os índios tupis-guaranis tinham como sagradas as nossas terras,
sendo a montanha mais alta da Juréia, considerada a morada de Tupã, o pai de
todos; é aqui, nesta pacata cidade, onde ocorre este nosso causo fantástico.
         Por
aqui sobrevivem lendas centenárias, toda a história do nosso país passou por
Iguape; dos descobridores, navegadores, piratas, desbravadores, bandeirantes,
captores de índios, formadores de quilombos, gente procurando ouro, tesouros,
gente fugindo do rei. Nossas raízes são profundas e adentram o desconhecido;
mulas-sem-cabeça galoparam por nossas estradinhas de terra, lobisomens famintos
uivaram para a lua cheia, mortos voltaram para mostrarem aonde esconderam o seu
ouro, visagens perseguiram os boêmios noturnos, bandos de Sacis assustaram
crianças arteiras, Iaras encantaram pescadores em nossos rios, e sereias
brincaram nas brancas areias de nossas praias.
         Existe
um livro, um livro muito antigo, escrito por um náufrago que viveu em nossa
região antes da fundação da Vila de Icapara; “O livro dos piratas da Barra”,
pouquíssimas pessoas leram tal obra, dizem que ele descreve costumes antigos,
histórias mirabolantes, estranhas, de arrepiar os cabelos, coisas fantásticas.
Quem escreveu conviveu com pajés, feiticeiros, seres encantados das nossas florestas,
e colheu farto material sobre causos sobrenaturais que há séculos nos
assombram; um deles é sobre o Saci da Enseada. 
         Enseada
é uma pequena vila de pescadores a margem do lagamar, distante uns cinco
quilômetros do centro da cidade, indo em direção à Juréia. Há cinquenta anos,
só de canoa para chegar ao local, hoje uma linda e asfaltada estrada nos leva
até lá; contam as lendas urbanas, contidas no “O livro dos piratas da Barra”,
que na Enseada vive um Saci, um Saci que guarda um tesouro muito antigo.
         Quando
o pirata Benedictus Calgary William Backerley, teve sua nau atacada por
selvagens canibais, e toda a tripulação trucidada, ele consegui salvar seu tesouro
e o enterrou na beira do mangue; fez amizade com um jovem Saci, isso no ano de
1512, ele prometeu ao amigo metade do seu ouro, caso o Saci se comprometesse a
ficar de guarda e jamais permitisse que um estranho se apossasse do butim.
         Benedictus
Backerley já estava idoso quando Icapara, nossa primeiro povoamento foi
fundado, o pirata passou a história como Dicto Saci, e foi o primeiro Benedicto
por estas paragens a receber o apelido de Dito, costume que permanece até a
atualidade. Benedictus acabou ficando gagá e contando sobre o seu grande
tesouro, só que devido a esclerose, não sabia mais aonde enterrara o seu ouro,
e quando questionado, respondia; – “Perguntem ao Saci!”
         Até
hoje ninguém sabe quantos anos vive um Saci; tem gente que acredita que ele
pode viver por muitos e muitos séculos, e assim, caso o Saci amigo de
Benedictus ainda estiver vivo, deve contar com mais de 500 anos de idade, e
tudo leva à crer que o tinhozinho está bem vivo e serelepe.
         Durante
séculos, após a morte de Dito Saci, o seu tesouro foi procurado; existem
milhares de buracos no meio da mata, pois toda a vez que alguém avistava um
pé-de-vento, um rodamoinho, acreditava que era o Saci amigo do pirata cuidando
do ouro, e já cavava um buraco à procurar o tesouro escondido.
         Na
verdade o tesouro permanece intacto, a estrada asfaltada passa por cima do
local onde o butim foi enterrado, e o ponto exato fica bem em frente ao
pequenos pesqueiro da vila da Enseada; muitas pessoas já foram estapeadas,
tiveram os cabelos puxados, levaram sopapos, cascudos, tapas na orelha, ao
pararem seus veículos naquele lugar; quem sabe da antiga história, passa de
carro com os vidros fechados e nem pensa em parar, e quem não sabe, se arrisca
a levar um belo susto. Vida longa ao Saci da Enseada!
Gastão Ferreira/2019

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