O pirata Gedeão
         A
nossa história tentou de todas as formas apagar o seu nome; ele foi uma das
lendas que infestou o litoral sul do Brasil, passou pela Vila de Iguape
inúmeras vezes, contam que seu divertimento era incendiar um arraial, matar os
homens, aprisionar os jovens, roubar os ricos, sacanear os pobres e se
aproveitar das inocentes donzelas; uma besta humana, o pirata Gedeão.
         Na
velha Princesa do Litoral foi travada uma das maiores batalhas de que se tem
notícia, a imprensa nada divulgou na época. Em primeiro lugar porque a cidade
ficava num fim de mundo, quando alguém se referia à Princesa dizia; lá tinha,
ou nos confins… Em segundo lugar, era um período de chuva, e os rios, o mar, as
onças, as mutucas e os borrachudos estavam doidos, e ninguém era besta de fazer
turismo com um tempo ruim assim. 
         Até
hoje ninguém sabe o porquê do pirata Gedeão ter cercado a pacata cidade num
período de paradeira; o entrudo de Momo tinha passado, a festa do Bom Jesus foi
um fracasso naquele ano sombrio, a manjuba nem deu as caras, e o Valo Grande
nem existia, e a Ilha Comprida ainda se chamava Maratayama.
         Gedeão
cercou a cidade, os piratas tomaram conta dos bares, botecos, casas de
prostituição, casa de penhores, casa da moeda, casa do padre, casa da mãe Joana;
o que todos sabiam é que o pirata Gedeão mandara transportar seu imenso tesouro
para uma casa de altos muros, perto do centro da vila. Na verdade o casarão
está situado, na atualidade, entre a rua Ana Cândida e a rua Capitão Dias, o
local onde é hoje a Casa da Sopa.
         O
azar de Gedeão é que os outros bandos de piratas, todos seus inimigos, se
uniram e atacaram a Princesa; era pirata para todos os lados, morreu gente pra
dedéu. Um dos filhos de Gedeão tentou esconder o tesouro, e foi assim que
começou a lenda urbana; dizem que Benedicto Marcus Vinicius Negrão Fortes del
Rio e Mar, o famoso Dito Água, colocou o butim numa imensa panela de barro,
vinda do Mumuna, mas manufaturada com o barro negro do Jairê. Aconteceu que um
tiro de canhão acabou com a alegria do Dito Água, a panela caiu num riacho que
passava exatamente onde é na atualidade a rua Ana Cândida Sandoval Trigo, e se
perdeu.
         Mês
passado choveu além do esperado, muitas ruas surucaram e um mapa antigo foi
encontrado; estava dentro de uma pequena urna mortuária indígena. Graças ao
Bonje que ninguém lembrou de vender a preciosidade a troco de manjuba, como já
fizeram com tantos artefatos do passado.
         Historiadores,
engenheiros, curiosos e gente comum; todos deram pitaco e por fim decifraram o
mapa do tesouro, estava escrito em espanhol arcaico, e como sempre existe um
sabichão doido para ficar famoso, alguém sabia espanhol arcaico e o local exato
onde o grande tesouro estava dormindo por mais de duzentos anos, foi enfim
descoberto; a esquina da Ana Cândida com a Capitão Dias.
         Para
que a plebe vil não desconfiasse, foi montado um esquema pelas mentes
brilhantes; a rua Ana Cândida seria repaginada, todas as lajotas retiradas, o
leito compactado, as valas antigas, modernizadas. Impossível não encontrarem o
tesouro do pirata, o problema é que a coisa vazou, pois na cidade nada fica
escondido por muito tempo, e o povão fica dia e noite em torno da grande
cratera, onde provavelmente o tesouro dorme.
         Um
turista ficou impressionado com o tamanho do buraco, e perguntou o que estava
acontecendo; – “O senhor não sabe? Não lê jornal? Não tem facebook? Foi aqui
que ontem à noite caiu um meteoro, estamos cavoucando a sua procura; vale uma
fortuna.”
         O
turista comprou uma pá, e agora se juntou aos caçadores do tesouro; pobre
pirata Gedeão, dançou!
Gastão Ferreira/2019

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