O brinco de prata
O
sobrado dos Toledos, construído no início do século XIX pelo rico proprietário
de terras, escravocrata, e político iguapense, José Carlos de Toledo, aos
poucos vai revelando os seus muitos segredos. O prédio em ruinas, pertencente
em doação à igreja católica, no ano de 2019, através de convênios, está sendo
restaurado. Uma equipe de arqueólogos descobriu no local, entre fragmentos de
objetos antigos, moedas e cerâmicas, um brinco de prata; um único brinco de
prata….
sobrado dos Toledos, construído no início do século XIX pelo rico proprietário
de terras, escravocrata, e político iguapense, José Carlos de Toledo, aos
poucos vai revelando os seus muitos segredos. O prédio em ruinas, pertencente
em doação à igreja católica, no ano de 2019, através de convênios, está sendo
restaurado. Uma equipe de arqueólogos descobriu no local, entre fragmentos de
objetos antigos, moedas e cerâmicas, um brinco de prata; um único brinco de
prata….
No
Ano da Graça do Senhor de 1848, o casarão dos Toledos ofereceu um grandioso
sarau literário à fina flor da sociedade. Entre os mais diversos licores,
petiscos, rebuscados, refrescos e vinhos do Porto, nossos escritores, poetas,
repentistas e declamadores, fizeram a alegria da elite. Vinte jovens escravas
atenderam os comensais, e na grande cozinha, cinco cozinheiras negras,
prepararam a comilança. Foi neste memorável sarau que a donzela Eurinice Fortes
Paranhos Ribeiro, acusou a jovem cativa Benedita Custódia do Rosário e Silva,
de lhe ter roubado um brinco de prata.
Ano da Graça do Senhor de 1848, o casarão dos Toledos ofereceu um grandioso
sarau literário à fina flor da sociedade. Entre os mais diversos licores,
petiscos, rebuscados, refrescos e vinhos do Porto, nossos escritores, poetas,
repentistas e declamadores, fizeram a alegria da elite. Vinte jovens escravas
atenderam os comensais, e na grande cozinha, cinco cozinheiras negras,
prepararam a comilança. Foi neste memorável sarau que a donzela Eurinice Fortes
Paranhos Ribeiro, acusou a jovem cativa Benedita Custódia do Rosário e Silva,
de lhe ter roubado um brinco de prata.
Eurinice
amava em segredo Antero Sandoval de Veras Martins, herdeiro de navios mercantes
e engenhos de arroz, e também exímio violeiro, conta a história que ele foi o
nosso primeiro “cantador do vale”, e como todo o violeiro, um paquerador nato;
Eurinice notou as piscadelas do mancebo para a bela escrava Benê. Eurinice possuía
ouro, e mais nada, nem beleza, nem bondade, nem humildade, apenas o vil metal
que ela achava que comprava todas as coisas.
amava em segredo Antero Sandoval de Veras Martins, herdeiro de navios mercantes
e engenhos de arroz, e também exímio violeiro, conta a história que ele foi o
nosso primeiro “cantador do vale”, e como todo o violeiro, um paquerador nato;
Eurinice notou as piscadelas do mancebo para a bela escrava Benê. Eurinice possuía
ouro, e mais nada, nem beleza, nem bondade, nem humildade, apenas o vil metal
que ela achava que comprava todas as coisas.
A
moça Eurinice foi ao banheiro retocar a maquiagem, na verdade na época, não se
retocava a maquiagem, e sim se passava rouge (o blush moderno) nas faces; ela
retirou os brincos de prata, o colar de pérolas, deu uma geral nos espartilhos,
e entre suspiros comentava com Constança de Assunção Alves de Castro sobre os
convidados do sarau, especialmente sobre o garbo e beleza do mancebo Antero
Sandoval, quando Benedita Custódia entrou no banheiro para retirar um penico
que já estava cheio, sem querer esbarrou em Eurinice, e derrubou parte das
joias no chão; a escrava levou na hora oito tabefes nas fuças, e se Constança
não segurasse Eurinice, provavelmente ela teria quebrado a sua sombrinha
europeia na cabeça da serva.
moça Eurinice foi ao banheiro retocar a maquiagem, na verdade na época, não se
retocava a maquiagem, e sim se passava rouge (o blush moderno) nas faces; ela
retirou os brincos de prata, o colar de pérolas, deu uma geral nos espartilhos,
e entre suspiros comentava com Constança de Assunção Alves de Castro sobre os
convidados do sarau, especialmente sobre o garbo e beleza do mancebo Antero
Sandoval, quando Benedita Custódia entrou no banheiro para retirar um penico
que já estava cheio, sem querer esbarrou em Eurinice, e derrubou parte das
joias no chão; a escrava levou na hora oito tabefes nas fuças, e se Constança
não segurasse Eurinice, provavelmente ela teria quebrado a sua sombrinha
europeia na cabeça da serva.
Na
volta ao salão de festas, a mãe de Eurinice perguntou se a nova moda era o uso
de um único brinco, e foi nesse momento que a muvuca aconteceu; Eurinice acusou
a escrava Benedita de ter roubado o seu brinco de prata. A serva foi despida na
frente de todos, e nada foi encontrado com ela. Eurinice exigiu que a moça
fosse açoitada para que revelasse aonde escondera a joia; espancada, torturada,
esbofeteada, quase morta de tanta chicotada, se não fosse a piedade do
“cantador do vale”, a escrava teria morrido, ali mesmo, junto ao pelourinho.
volta ao salão de festas, a mãe de Eurinice perguntou se a nova moda era o uso
de um único brinco, e foi nesse momento que a muvuca aconteceu; Eurinice acusou
a escrava Benedita de ter roubado o seu brinco de prata. A serva foi despida na
frente de todos, e nada foi encontrado com ela. Eurinice exigiu que a moça
fosse açoitada para que revelasse aonde escondera a joia; espancada, torturada,
esbofeteada, quase morta de tanta chicotada, se não fosse a piedade do
“cantador do vale”, a escrava teria morrido, ali mesmo, junto ao pelourinho.
Antero
Sandoval comprou a escrava Benedita, alforriou a moça e casou com ela, tiveram
muitos filhos, todos violeiros e “cantadores do vale”. Eurinice Fortes Paranhos
ficou para titia, depois para vovó, só não chegou a bisavó porque se matou ao
enlouquecer, e sempre acusando a escrava Benedita de ladra, e por muitos anos assombrou
o sobrado dos Toledos, pois quem passava frente ao prédio ouvia os gritos,
vindos da escuridão e das ruínas; – “Devolve o meu brinco, desgraça!”
Sandoval comprou a escrava Benedita, alforriou a moça e casou com ela, tiveram
muitos filhos, todos violeiros e “cantadores do vale”. Eurinice Fortes Paranhos
ficou para titia, depois para vovó, só não chegou a bisavó porque se matou ao
enlouquecer, e sempre acusando a escrava Benedita de ladra, e por muitos anos assombrou
o sobrado dos Toledos, pois quem passava frente ao prédio ouvia os gritos,
vindos da escuridão e das ruínas; – “Devolve o meu brinco, desgraça!”
Após
a equipe de arqueólogos, chefiada por Wagner Magalhães, encontrar o brinco de
prata, ficamos sabendo que o mesmo deve ter caído da penteadeira e entrado por
um dos vãos do assoalho de madeira, Benedita foi açoitada injustamente, e
talvez seja este o motivo de Eurinice ter passado tanto tempo como visagem,
assustando quem passasse frente ao casarão altas horas da noite. Agora que
acharam o brinco, e o mistério foi solucionado, teremos um fantasma a menos na
Princesa do Litoral.
a equipe de arqueólogos, chefiada por Wagner Magalhães, encontrar o brinco de
prata, ficamos sabendo que o mesmo deve ter caído da penteadeira e entrado por
um dos vãos do assoalho de madeira, Benedita foi açoitada injustamente, e
talvez seja este o motivo de Eurinice ter passado tanto tempo como visagem,
assustando quem passasse frente ao casarão altas horas da noite. Agora que
acharam o brinco, e o mistério foi solucionado, teremos um fantasma a menos na
Princesa do Litoral.
Gastão Ferreira/2019
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.