O baile do diabo
         Fui
convidado para um baile de viola num bairro rural; início as 22 horas e sem
horário para terminar.  Fomos em três
amigos; eu, Rogério e Cícero. Pegamos uma estradinha de terra; o tempo estava nublado,
hora o céu clareava, hora escurecia por completo, e uma imensa lua cheia
marcava presença; – “Lua de lobisomem…”, brincou Rogério.
        
Nem pense! Nada de azarar à noite, e eu estou meio perdido neste meio de mato;
será que já não passamos da porteira do sitio? O prédio, nos bons tempos, foi
um hotel fazenda e tem dois andares…
        
Não, ainda não passamos por nenhum local habitado, mas noto um pequeno
tremeluzir mais à frente, lá no meio daquelas árvores, e é um prédio grande que
aparenta ser uma construção recente…
         As
luzes que avistamos eram de lampiões, não havia energia elétrica naquelas
paragens. O casarão estava localizado bem a margem de um rio, e no final da
estradinha de terra; muitas canoas encostadas no pequeno porto, sinal de que os
frequentadores do fandango eram todos ribeirinhos. Entramos no salão de dança.
         O
arrasta-pé corria solto, e junto com muita cachaça; a dificuldade de conseguir
gelo não permitia o consumo de cerveja. Pinga com mel e limão, eita bebida para
fazer efeito rápido, e cachaça vem, cachaça vai, Cícero arrumou uma morena
caiçara, se enrabichou na moça, e foi se divertiu.
         Rogério
também descolou uma bela companhia, muito beijo na boca, muita dança juntinhos,
um pouco de agarra e agarra, e a noite avançava lentamente…
         Andei
pelo salão a procura do amigo que me convidara, não o encontrei, aliás não vi
nenhum conhecido no baile, e terminei tirando uma jovem para dançar; ela disse
ser a rainha do baile, tinha uma faixa e um diadema de falsos diamantes na
cabeça. Não se fazem mais moças de sitio como antigamente, na atualidade partem
fácil para os finalmente, e nosso arrasta-pé se transformou numa orgia; o
violeiro parecia enfeitiçado, e as melodias convidavam a lascívia, a maioria
dos pares dançavam quase nus, e a cachaça correndo solta entre risos e
gargalhadas.
         Cachaça
de sitio sobe fácil, acabamos desacordados, e ao amanhecer ao abrir os olhos
ficamos mudos de espanto; ao lado de cada um de nós um esqueleto nos abraçava,
e havia muitos outros espalhados pelo chão do salão. A construção que ao
chegarmos aparentava ser nova, na verdade era uma ruína há muito tempo
abandonada. Ao meu lado, ossos corroídos e um diadema de lata com pedras
imitando diamante, o mesmo que minha parceira de danças, a rainha do baile,
usava.
         A
ressaca pegou, e além da ressaca um sentimento de nojo; passamos a noite
beijando garotas mortas, e vai saber se não fizemos coisas piores. Na volta
encontramos a casa do amigo que me convidara para o baile; -“O que aconteceu?
Ontem à noite passaram direto, e não voltaram…”  
         Quando
explicamos que nos perdemos, mas mesmo assim fomos num fandango, um baile na
casa na margem do rio, nosso amigo caiu na risada; – “Não me digam que
participaram do baile do diabo! ”
        
Que baile do diabo?
        
Dizem que naquela casa velha, uma vez por ano o diabo toca a sua viola, e chama
todos os que morreram de morte violenta; os assassinos, as prostitutas, os sem
Deus e sem fé para participarem do arrasta-pé; é a maior sem-vergonhice… Eu
sei que é uma lenda urbana, mas muitas pessoas, a maioria andarilhos foram
encontrados mortos na velha casa, dizem que todos morreram de pavor.
         Baixamos
a cabeça, pedimos desculpas e pegamos a estrada de volta à cidade; baile na
zona rural, nunca mais!
Gastão Ferreira/2019

Deixe um comentario

Livro em Destaque

Categorias de Livros

Newsletter

Certifique-se de não perder nada!