Para não esquecer
         Algo
que passa completamente desapercebido para todos nós, é a lembrança que nos
fica dos que nos precederam na grande viagem. É fantástico o modo como apagamos
do nosso cotidiano aqueles que já partiram, e que de alguma forma não marcaram
de maneira especial o nosso conviver. Moro na cidade de Iguape desde 1984, e fui
dono do Restaurante Varandão, no Funil, no centro da cidade até 1995; por ser
comerciante conheci centenas de pessoas de todos os níveis e desníveis sociais.
Confesso que não sou bom para guardar nomes, mas dificilmente esqueço uma
fisionomia.
         Hoje
lembrei do Professor; dizem que seu nome era Carlota, mas Carlota era o nome da
mulher que o adotou, e ele nem era professor. Já o conheci idoso, andava
abraçado a uma velha pasta de cartolina, cheia de recortes de jornais. Passava
por ser um homem muito inteligente, autodidata, ensinou muita gente a ler e a escrever;
não conheci nenhum dos seus alunos.
         O
cardápio do Varandão marcou época; uma das melhores feijoadas da cidade,
dobradinha famosa, virado à paulista toda a segunda-feira, estrogonofe de
marisco e peixe ao molho de camarão, deliciosas panquecas, e o nhoque com
frango assado de domingo era tido como um dos preferidos na Princesa, cada dia
um prato diferenciado e também o trivial, o prato-feito e o comercial. Com o
tempo todos os concorrentes copiaram o cardápio e a concorrência tinha altos e
baixos. Foi como meu freguês que conheci o Professor, pena que na época, talvez
devido à minha juventude, e qual jovem não é metido a besta? Eu não me
interessei pela história de vida do professor.
         Naqueles
bons tempos, não existiam tantos pedintes na cidade; tinha um pessoal com
problemas mentais que ficava na praça atrás da igreja, não incomodavam ninguém
e todos nós sabíamos quem eram os seus parentes. A mendicância só se tornou
endêmica durante os anos 90, foi quando os pedintes vindos para abrilhantar a
Festa de Agosto resolveram ficar na cidade e não mais participar da Festa de
Cananéia.
         Uma
outra figura, da qual não sei o nome, mas que marcou presença no Varandão, foi
uma mulher gorda, que não gostava de tomar banho e que fazia xixi onde sentava;
paguei boa parte dos meus pecados com a criatura, muitos fregueses reclamavam
da sua presença no restaurante, pois realmente a mulher fedia, mas ela também
tinha fome, e trazia o dinheiro contadinho, pagava adiantado e não reclamava do
atendimento; um dia ela não compareceu, foi encontrada morta na rua, jamais
fiquei sabendo qual o seu nome.
         Contei
sobre os mendigos porque eles também tinham um costume; uma vez por mês comer
num restaurante. Chegavam sozinhos e perguntavam o preço de tudo, pediam o
prato do dia e tudo o que tinham direito, queriam saber se a caipirinha
acompanhava a feijoada, se o café no final do almoço era grátis. Ficavam
insuportáveis! Cheio de querer-querer, se achando a fina flor da roseira em
flor, no final davam caixinha ao garçom e no dia seguinte, perto do meio dia,
vinham pedir sobras de comida, todos muito humildes e dizendo que Deus estava
vendo e escrevendo as respostas que eu dava para eles… Eta vidinha, que
saudade! 
         E
é assim, dessa convivência informal, que tiro minhas histórias; algumas
verdadeiras, outras não tanto, mas todas filhas da realidade, pois a Princesa
do Litoral é muito velha e sabe de muitas coisas. Converso com ela todos os
dias; ela sabe de tudo e tira de letra as picuinhas do dia a dia, conhece os
nossos pecados e as nossas virtudes, e conviveu com todos os nossos antepassados,
afinal em 2019 ela fará 481 anos.
Gastão Ferreira/2019

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