Dito Cocho & Dita
Berne
         Se
conheceram na primeira volta do footing em torno da Praça da Matriz, no dia dez
de Março de 1975, exatamente às 19:30 horas, marcadas no relógio Cassio de
Benedito Romeu Pontes. O mocinho nunca tinha visto a garota, coisa estranha!
Pois a cidade era pequena, e todos eram aparentados entre si. A paquera visual
durou semanas; os amigos de Dito, todos torcendo pelo namoro, formavam um
bando, e quando passavam pela garota, ela também rodeada de amigas, todos se
cutucavam e sorriam.
         Benedita
Julieta de Souza, filha de médicos, caiçara raiz, descendente, em linha direta,
de Tomé de Souza pelo lado paterno e de Amália Rodrigues Alvarenga e Silva,
pelo lado materno. Dita Julieta, era moça prendada, estudiosa, um tanto
sonhadora, muito linda e humilde.
         Benedito
Romeu Pontes, filho de pescador, caiçara raiz, descendente, em linha direta, do
corsário Astrogildo Negrão, e da valente e afamada índia guarani, Jaci de Tupã,
a inventora da tainha na folha da bananeira. Dito Romeu, estudou até a segunda
série, largou os estudos para ajudar o pai na lavoura de mandioca e na pesca da
manjuba; sonhava em casar e ser pai de numerosos filhos, era valente e afamado
lutador.
         A
vida era assim, lenta e singela, mas uma tarde o casal de pombinhos, se assim
se poderia chama-los, se encontraram frente a frente, e apesar do nervosismo de
ambos, conseguiram articular algumas palavras. Depois das poucas falas,
perderam a vergonha e ficaram conversando por duas horas; toda a cidade viu o
casal. Quando Ditinha chegou em casa, o fuzuê estava armado; – “Não criei filha
para andar de namorico com filho de pobre; amanhã pela manhã vamos para Santos,
e você continuará por lá os seus estudos, um dia voltará médica e formada,
então sim, poderá casar com quem quiser, a hora que quiser, do jeito que
desejar…”
         Na
casa de Dito Romeu, a avacalhação foi a mesma, mas por motivos diferentes; –
“Não criei filho para pagar mico com filinha de papai; não sei aonde erramos
com a sua educação! Como teve a desfaçatez de namorar uma Berne? Poderia se
apaixonar por qualquer garota, menos por uma Berne! Amanhã cedo vamos para o
sitio, e você só vai voltar à cidade na Festa do Bonje.”
         Dez
anos se passaram; a médica doutora Benedita Julieta de Souza, e o marido doutor
Alexandre Fontes Ribeiro e Castro, participavam de um bingo beneficente quando
tiveram de dividir uma prenda com um outro casal. Não é que o casal era
Benedito Romeu Pontes e Charlaine Kairolaine de Pontes! Dita Berne, olhou para
Dito Cocho e pensou; – “Do que escapei! O amor é realmente cego; Dito nem
chegou aos trinta anos, e faltam dois dentes, pele envelhecida, provavelmente
está num início de cirrose.”
         Na
volta para a casa, Charlaine comentou; – “Cê viu o nome da doutora? Benedita
Julieta! E você Benedito Romeu, dava pra ser uma linda história de amor; Romeu
& Julieta…”
        
“E quase foi!”, disse Dito Romeu
        
“E porque não foi?”, perguntou Charlaine Kairolaine
        
“Por que não foi Romeu & Julieta, e sim Cocho & Berne”
        
“Meu Bonje! A médica é uma Berne? Tô passada…”
        
“Eu também!”, falou Dito Cocho.
Gastão Ferreira/2019
 

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