Armando o bote
         A
estradinha rural que liga a cidade grande ao sitio, está intransitável; com
tanta chuva os buracos reapareceram, o cascalho foi embora e parte da pista
surucou. A única coisa boa, nesta época de aguaceiros, é que o pessoal
frequenta mais a igreja do que o bar, pois com a falta de dinheiro devido ao
mau tempo, nada de ficar bebendo pelos botecos, e cada vivente tenta ganhar uma
grana sem muito esforço.
         Dona
Márcia Cristina de Oliveira Barros, nossa estimada Dona Cricri, encontrou uma maneira
de descolar umas merrecas; um curso de aprendiz de candidato à vereador. Ano
que vem teremos eleição para prefeito e vereadores, e quem não quer ser
excelência, sentir o gostinho do poder, comer à custa do contribuinte em todas
as “Panelas Novas” da vida? Hem! Hem?
         Um
jornal da cidade fez uma pesquisa secreta e constatou que mais da metade da
população do município tem pretensão política. Somente para o cargo máximo
temos vinte e cinco candidatos, e para a vereança, perto de três mil e duzentos
pré-candidatos, fora todo aquele pessoal que está atualmente exercendo cargo de
confiança, e que já experimentou o sabor de andar, para tudo quanto é canto num
carro oficial, e com direito a motorista, se achando com a Princesa do Litoral
na barriga, e pensando que é autoridade.
         Trinta
aprendizes se apresentaram no curso de Dona Márcia Cristina, mas apenas cinco
são de nosso sitio, é que notícia de dinheiro fácil se espalha rápido e muita
gente de outros sítios se inscreveu. Dona Márcia é raposa velha, pois é a nossa
eterna candidata há vinte anos, e nunca passou dos cinquenta votos, mas se acha
uma grande formadora de opinião e porta-voz do povo humilde e carente.
         Dona
Cricri, digo Dona Márcia, dividiu os aprendizes em diversas turmas; tem o
pessoal do turismo rural, os defensores dos direitos das crianças e
adolescentes, os que amam a terceira idade, os incentivadores do comercio
rural, os pescadores de manjuba, pescadores de bagre africanos para exportação,
os palmiteiros, os caxeteiros, os carnavalescos, os LGBTS, os XYzK e muitos
outros. 
         Nós,
os cachorros, ficamos só na butuca, espiando como os humanos se comportam; a
maioria quer saber sobre algo chamado proventos, notas frias, caixa dois e
três, a quantos cargos de confiança cada um tem direito, qual a forma mais
segura de superfaturar algo, como se monta uma começão… Começão? A professora
falou que o certo é Comissão.   
         Meu
primo Barrabás, cão do Pastor Silas, ficou horrorizado com o baixo nível moral
dos candidatos, mas o cachorro Platão, que mora na casa do professor Sócrates,
afirmou que humanos são assim mesmo; – “Primeiro os meus, depois os teus, Mateus!
”, como eu não sei quem é o Mateus, fiz de conta que sabia e saí de fininho.
         A
eleição ainda está longe, mas é para nós, aqui da zona rural uma época
especial; muito churrasco grátis no sitio, cerveja para os possíveis eleitores,
tapinhas nas costas, sorrisos e caras e bocas, carona todo o dia para a cidade,
e depois quatro anos de completo esquecimento. É uma pena que os humanos nunca
aprendem, oh gente para gostar de sofrer! Parece que não se tocam que já tem um
pessoal armando o bote; quem viver, verá!
Omisso, um cão rural.
Gastão Ferreira/2019
          
        

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