Anoiteceu
         Maria
Antônia Martins de Souza, Dona Toninha, minha vizinha de toda uma vida, mãe de
Cassia e de meu melhor amigo, Dito Fujão. Fazia o bolo mais gostoso da nossa rua,
trabalhou duro para criar e sustentar suas duas crias; viúva aos vinte e poucos
anos, hoje estaria completando 82 anos. Dona Toninha, assim sem avisar,
anoiteceu…
         Sentada
no banco da praça, contava a uma desconhecida como conseguira escapar de um cativeiro;
seu marido, um dos homens mais ricos da cidade, pagou horrores por sua
liberdade, e o navio dos piratas foi incendiado, na verdade foi o último navio
corsário a visitar o nosso lagamar.
         Dona
Antônia foi professora primária, gostava de ler, era uma grande contadora de
histórias; no seu anoitecer todos os personagens se misturaram, ganharam vida,
passaram a ser reais. Ceci e Peri, o casal de gatos siameses, eram dois amantes
transformados em gatos por Tupã, o pai de todos.
         Cassia
cuidou com desvelado carinho da velha mãe, era o Alzheimer que sem anunciar se
apoderava da mente de Dona Toninha; tinha dias que reconhecia a filha, outros
vezes a chamava de Doutora Creusa, uma médica cubana que atendeu no Posto de
Saúde da cidade, e quando foi obrigada a regressar para Cuba, preferiu se
suicidar.
         Padre
Ariosto também passou por maus bocados tentando explicar para Dona Toninha que
ela não podia ser irmã de São Benedito; primeiro porque segundo consta,
Benedito era filho único, e não tinha irmã. Foi o maior escândalo, pois Maria
Antônia enfrentou o senhor vigário; -“Eu não sou louca, padre Ariosto! Sei
muito bem que não posso ser a irmã de São Benedito, eu sou loira! Estranho o
senhor não reconhecer uma freira, uma religiosa, só porque fui assaltada e levaram
o meu hábito, todos me ignoram. ”
         Quando
o mal se agravou, ela passou a ser os próprios personagens, deitada no banco da
pracinha dizia ser a Bela Adormecida, outra vez, arrancou uma maçã do amor das
mãos de uma criança, afirmando que a fruta estava envenenada por uma bruxa, a
criança quase pirou.
         Talvez
por ser professora primária, nenhum dos seus inúmeros personagens eram maus; os
antigos alunos a tratavam com respeito e até gostavam de ouvir suas histórias
malucas, era tida como uma louca mansa, muito educada, não maltratava ninguém.
         Dona
Toninha já partiu, foi ao encontro do Seu Jorge, o seu único amor e que morreu
tão jovem. Ela nos deixou muitas recordações; seus alunos, seus vizinhos, seus
amigos ainda não a esqueceram totalmente. Nestas tardes mansas de primavera,
quando a noite chega mais cedo, eu recordo de Dona Toninha, minha vizinha de
toda uma vida, mãe de Cassia e de meu melhor amigo, Dito Fujão, ela, a
professora que assim, sem mais nem menos, simplesmente anoiteceu.
Gastão Ferreira/2019
           
        

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