A noite em que o bebê Robson Raphael Stephan da Silva foi raptado marcou a cidade. Até os dias atuais ninguém esqueceu o desespero de Audrey Catherine da Silva, a zelosa mãe de Robson.
Audrey foi à farmácia popular buscar um remédio para o seu pimpolho que passou o dia febril, o neném não aceitou a papinha de maçã argentina, não riu, não chorou, não gritou, e nem saiu de sua posição estática do sofa da sala.
Quando Catherine retornou da farmácia encontrou a porta de sua casa entreaberta, e Robson não estava sentadinho em seu sofá predileto…
De inicio Audrey pensou que ter acontecido um milagre; seu filho reborn havia renascido, e saíra gatinhando para conhecer os arredores da moradia…
Estava nesse acredita, e não acredita quando notou um papel sobre o sofá:
– Quero dois mil dólares para devolver o pequeno Stephan, caso o contrário ele será espancado, torturado, esquartejado sem dó nem piedade, e jogado numa lixeira… Assinado – John, o sequestrador.
Audrey Catherine surtou; pobre Robson! Tão pequeno e passando por essa situação traumática, como estará se sentindo o infeliz bebê? Nesse momento sem o carinho da mãe, longe de seus brinquedos favoritos, sem seus sapatinhos importados, suas roupinhas de marca, suas comidinhas balanceadas… Oh! Quanta infelicidade para Robson Raphael Stephan da Silva…
Audrey saiu em disparada, e aos gritos de sua residência, assustou a vizinhança, os pedreiros, os pintores de paredes, a velharada que fica na janela, dia e noite, espiando a vida passar; também chamou a atenção dos sem tetos, dos donos dos bares, padarias, lojas, dos olheiros das bocas de fumo, até os cachorros de rua se espantaram com os gritos de Catherine…
Na delegacia o bicho pegou; o escrivão se negou a fazer um B.O., Audrey chamou um dos cinco advogados de porta de cadeia que estavam de plantão na entrada da delegacia…
Com toda a cidade já sabendo da muvuca o pessoal foi se achegando; veio o senhor vigário, dois pastores, cinco pais de santo, dez ateus, uns trinta atoas, alguns bêbados, o vice-prefeito, quatro vereadores, e todos ali parados ouvindo os gritos e gemidos de Audrey…
Os curiosos queriam saber qual a atitude do senhor delegado perante essa ocorrência inusitada; alguns pediam para encarcerar Audrey por tumultuar a pacata cidade, outros torciam para que o sequestrador fosse capturado, afinal um reborn de três mil dólares era algo valioso…
O delegado estava pronto para comunicar a sua decisão quando uma viatura chegou cantando pneus; dela desceu a pequena Sheilla Christina, a menininha que passa os dias na praça pedindo dez reais para comprar pastel, e Sheilla apertava contra o peito um amarrotado bebê reborn…
Audrey arrancou dos bracinhos de Sheilla o pequeno Robson, Sheilla se agarrou no vestido de Audrey pedindo aos prantos que Catherine devolvesse seu boneco que achara no lixo…
Com uma mão livre Audrey esbofeteou Sheilla que ao cair estatelada no chão puxou o vestido de Audrey, e Audrey Catherine estava nua por baixo da veste arrancada…
Até os dias atuais ninguém esqueceu a muvuca causada por Audrey Catherine da Silva, a pelada, e por seu filho reborn Robson Raphael Stephan da Silva.
Gastão Ferreira/2025
– Imbé/RS –
🔍 Comentário:
Este conto é uma sátira que mistura humor, exagero e crítica social. Ele brinca com situações absurdas do cotidiano, mostrando como, muitas vezes, as pessoas dão proporções gigantescas a coisas pequenas — ou não tão pequenas assim, dependendo do ponto de vista. O bebê reborn aqui representa esse apego emocional exagerado, enquanto a reação da cidade inteira reflete aquele velho costume de todo mundo querer participar, opinar e se envolver nos dramas alheios. Uma história divertida, mas que também nos faz pensar sobre comportamento, empatia e, claro, sobre o bom e velho jeitinho brasileiro de transformar tudo em espetáculo!
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.