UM CIRCO FALIDO

                        Boa noite
damas e cavalheiros! Sejam bem vindos ao último espetáculo desse magnífico
circo. Como podem observar a lona está um tanto furada, as poltronas quebradas
e o picadeiro central incapacitado de receber artistas e bailarinos. Os leões
foram roubados, as panteras fugiram e os macacos amestrados um por um nos
abandonaram.
                   Esse
circo marcou época, foi um dos maiores e melhores de nosso país. Gente famosa
nos visitou, artistas, poetas, cientistas e ficamos conhecidos até mesmo na Europa,
pois um ilustre escritor Francês escreveu um conto a nosso respeito. Tínhamos
uma placa comemorativa lembrando sua breve estadia entre nós, mas parece que um
espertinho a roubou e hoje ela enfeita a parede da sala da honesta figura.
                   Na
fase áurea navios eram fretados e traziam centenas de passageiros para
assistirem aos maravilhosos espetáculos aqui realizados. Ouro enfeitava nossas
vestimentas e grandes peças teatrais foram encenadas sob essa velha lona.
                   A
decadência começou quando a diretoria não mais se importou com o bem estar dos
espectadores e todo o dinheiro arrecadado e destinado as benfeitorias começou a
ser repartido entre eles. Não se contratava artistas famosos e sim os filhos e
filhas de amigos, uns canastrões que afastavam com suas péssimas atuações o
público pagante, perseguiam os que realmente possuíam talento e conseguiram
através de maquinações diabólicas se perpetuarem no palco, ocasionando a ruína.
                   Boa
noite senhoras e senhores, na penumbra não consigo divisar seus rostos, mas eu
os conheço um por um… Sei que não se lembram de mim, mas fui eu quem indicou
o lugar de cada um de vocês na assistência antes do início da função. Já fui o
porteiro, o bilheteiro, fui um dos primeiros a fazer parte da equipe circense.
Um pau para toda a obra! Banhei e alimentei os animais, vendi ingressos, fui
ator, trapezista, bailarino e com o tempo tornei-me a figura central nas
apresentações e agora com profunda tristeza eu me despeço… Boa noite distinto
público… Eu sou a alma do circo… Eu sou o palhaço… Adeus!
Gastão Ferreira
                  

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