DONA VIRIDIANA

         Dona
Viridiana possuía profundas raízes, sua linhagem se perdia no tempo.
Descendente de um flibusteiro aprisionado pelos guaranis no Costão da Jureia na
época do descobrimento e de uma índia apaixonada que em troca de um tesouro enterrado
na praia libertou o pirata da escravidão por amor.
         Jupira,
a indígena, posteriormente casou-se com um jovem e valente português degredado.
Com o ouro herdado do pirata comprou um marido e uma posição social de relevo
na incipiente freguesia do Icapara. Com o segundo marido, o primeiro fora o
corsário, teve um filho e uma filha, Ricardo e Mafalda.
         Ricardo
aumentou o capital da família, se embrenhou nas matas arrebanhando indígenas
nas Entradas e Bandeiras, não deixou descendente e Mafalda foi sua única
herdeira.
         Mafalda
casou-se com um Capitão-mor, um sacripanta e posseiro muito estimado na corte e
agente secreto de El Rei de Portugal. O amigo rei vendeu-lhe a peso de ouro um
título de nobreza e Mafalda passou a ser a Senhora Baronesa. Com a morte do
fidalgo na famosa invasão de São Vicente pelos icaparanos, Mafalda e a filha
Amanda, imensamente rica e prepotente, se mudaram de mala e cuia para a
recém-formada Vila de Iguape.
         Amanda
não herdou o título de nobreza nem necessitava, abastada o suficiente para
comprar quem bem lhe provesse, perdidamente apaixonada por um jovem pároco,
doou uma fortuna aos cofres sagrados. Quase na penúria e com uma filha
bastarda, no final da existência possuía de seu, a casa senhorial de eiras e
beiras, um sitio não longe da cidade, tocado por mãos escravas. O padre foi
chamado ao Vaticano e foi elevado ao cardinalato, um príncipe entre príncipes,
nunca reconheceu a filha de nome Leonor que teve com Amanda e nem as outras que
trouxe ao mundo com diversas amantes.
         Leonor
foi bisavó de Viridiana, comeu o pão que o diabo amassou, com a libertação da
escravatura o sitio cultivado por cativos foi abandonado e Leonor foi à luta,
não vendeu a casa de eiras e beiras e muitos quartos. Montou uma pousada e vez
por outra mantinha encontros íntimos com os hospedes mais abonados. O
passatempo lhe rendia altos dividendos, casou-se com um caixeiro-viajante e
como o caixeiro viajava muito, entre uma viajem e outra nasceu Roberval, fruto
de um amor clandestino com um rico proprietário de navios mercantes.
         Roberval
herdou do pai a honestidade e o gosto por negócios escusos. Agiota,
politiqueiro e pilantra enriqueceu da noite para o dia, seu nome virou nome de
logradouro público, sua filha Anita se casou com o velho mais rico da cidade.
         Anita
foi mãe de Viridiana, era uma mulher que sabia das coisas, em sua casa só
entrava a fina flor da sociedade e Viridiana desde a mais tenra idade teve a
quem puxar. Foi criada no luxo, uma menina petulante que escarrava nas
domesticas e serviçais. Uma guria arrogante que se achava a dona dos menos
favorecidos pela fortuna.
         Viridiana
nunca casou. A ralé a julgava riquíssima e a pose confirmava sua origem nobre.
Criada entre mimos e regalias, com rapapés e elogios, a sua elegância a
transformava em uma bela adolescente. Nem bem entrou na maturidade a fantasia
dançou e Viridiana caiu na real; – Uma mulher de cabelos pixaim, profundas
olheiras, ranzinza e mal amada. Vivendo das poucas rendas e das passadas
glórias. Achava-se tão rica que comprava amigos e tão birrenta que sua melhor
amiga era a sua manicure.
         Um dia
Viridiana acordou no vazio, no vazio de sonhos, no vazio de amigos, possuía
profundas raízes, suas origens se perdiam no tempo… Jupira uma índia safada
que se aproveitara de um pirata prisioneiro para enriquecer, Mafalda a nobre
Baronesa que trocou a honestidade pela ganância, Amanda a que tudo perdeu por
amor, Leonor a prostituta que recuperou os bens da família, Roberval o agiota
que virou nome de rua, Anita a que deu o golpe do baú e Viridiana a que não
viveu… Pobre Dona Viridiana, tão rica… Tão pobre!
Gastão Ferreira/2012   
                
        

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