DONA PERERÉCA

         A mata
está em festa, chegou a hora da escolha do novo rei e dos representantes do
povo da floresta. A comadre Onça, esperta e matreira, promete a construção de
uma ponte ligando diretamente o rio à floresta, é muito ovacionada, isso é, jogam
ovos podres no felídeo. O Tatu anuncia que um túnel é a única solução para
evitar acidentes com o constante vai e vem no matagal. O Bicho Preguiça promete
um teleférico, alegando que todos os animais têm o direito de curtir a
magnífica paisagem vista do alto da montanha. O Macaco investe na diversão,
muito som e discotecas para a rapaziada. Os candidatos à coroa prometem o
paraíso.
         De todos
os habitantes quem mais se diverte com o evento é Dona Pereréca. Não perde
comes e bebes… Pereréca bêbada não tem dono, diz um ditado popular. Alguns
dos candidatos fazem questão de colocarem seus adesivos, ao vivo e a cores, na Dona
Pereréca. Bem antes da grande disputa surgiram comentários negativos envolvendo
as Pererécas, a família é grande e nunca se sabe quem é parente de quem.
         Dona
Pereréca na atual disputa já ganhou moto, uma reforma na moradia e muito
dindim, pois Pereréca que se presa não faz nada grátis para ninguém. Quem
trabalha de graça é o compadre Burro e quem acredita em promessas é o compadre
Coelho, que vira chaveiro. O Quero-quero vive de pedir favores e sempre
indeciso não sabe em quem votar. O Pardal, como sempre encima do muro, no final
vai aderir ao vencedor. O Bem-te-vi não perde comício e comenta tudo o que vê.
         Na
floresta sempre foi assim, nunca deram sossego a Dona Pereréca, não seria nessa
disputa que um costume tão arraigado desapareceria. Nas eleições anteriores
famílias foram desfeitas, escândalos abafados e concorrentes se aproveitaram
das jovens e fogosas Pererécas para ferrarem com adversários. A estirpe das
Pererécas é antiga e a linhagem não corre risco de extinção… Atualmente as Pereréquinhas
são mais desinibidas, sentem orgulho do que fazem e ficam horrorizadas ao
saberem que antigamente se prendiam as Pererécas sapecas.
         Os
Gaviões agradecem, as Cobras têm botes certeiros e os Veados nem ligam, são
herbívoros… A floresta um dia aprenderá a valorizar a incansável Dona
Pereréca, sem ela a mata é triste, os pássaros não cantam, os lobos não uivam,
os peixes desaparecem e o sol não brilha. Vida longa à Dona Pereréca e ao
futuro rei.
Gastão Ferreira/2012
              

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