DIAS & NOITES…

         O
professor Ovídio despertou tão feliz como iguapense em dia de inauguração de supermercado.
Acordou Dona Ysabel e as crianças avisando; – “Preparem-se! Hoje será um dia
muito especial. Vamos fazer as compras do mês.”
         Lorrayne,
a adolescente da família, não gostou do comunicado. Havia marcado um rolezinho
maneiro no novo templo de consumo da cidade e na lista dos garotos que gostaria
de beijar tinha uns quinze alunos de papai Ovídio.
         Mick
Jackson, o filho caçula, vibrou com a novidade, finalmente poderia mostrar aos
coleguinhas sua bermuda de marca (comprada na Feirinha do Braz por R$10,00 e
revendida na melhor loja da cidade por R$250,00). “O maior sucesso mano! Vou
arrasar.”, pensou.
         Márcia
Christina, dez primaveras incompletas, mas informando ter 18 no Facebook,
postou; – “Concerteza oje sera um dia expeciau… Vamus ao chopim e depois eu
conto pra voceis tudo que vimus.”
         O
calor estava insuportável, três quadras antes do supermercado e não encontravam
vaga para estacionar… “Parece o “Revelando São Paulo” no Centro de Eventos.
Nossa! Quanto carro.”, disse Lorrayne… “Mim acha que tá mais prá Festa de
Agosto!”, exclamou Márcia Christina.
        
“O certo é “eu acho”, minha filha… Quem fala “mim” é o Tarzan”, corrigiu o
professor.
        
“Filha! Passe-me a máquina fotográfica. Quero fotos para compartilhar com as
amigas da Barra… Vão morrer de inveja! Sentirão na pele o que é viver num
lugar civilizado.”, pediu Dona Ysabel.
        
“Pega mãe, mas depois devolve tá!”, falou Márcia Christina.
        
“Obrigada, minha filha! Devolvo sim…”
        
“Obrigada eu…”, disse Marcinha.
        
“Errado! Obrigada eu, não existe… O agradecimento é sempre para uma segunda
pessoa e nunca para o próprio indivíduo, ninguém agradece a si mesmo.”, alertou
o professor Ovídio.
         Finalmente
encontraram um estacionamento para o veículo. Na calçada pública, em frente ao
supermercado, um carrinho de cachorro-quente não permitia a passagem de
pedestre, contornaram o carrinho. Centenas de carros lotavam o lugar…
Mulheres muito bem maquiadas, vestidos longos e esvoaçantes faziam cara de
nuvem para a multidão que invadia a entrada do prédio.
         Seu
Ovídio e Dona Ysabel ficaram abismados; imensas filas em todos os caixas,
carrinhos atulhados de produtos, jovens mamães com enormes carrinhos de bebês
(agora é moda) atrapalhavam compradores… Curiosos comparavam preços e
gritavam; – “No “Velha Vida” está mais barato… No “Maisdinânimo” está em
oferta… No “Deussé” não tem dessa marca…” 
         Dona
Ysabel, sempre a mais sensata disse ao marido; – “Ovídio! Que muvuca… Vamos
deixar as crianças fazerem um rolezinho e num outro dia voltamos… Ninguém
merece! E depois já fizemos a nossa parte; todos os nossos conhecidos nos viram
entrar e vão comentar adoidados…”
        
“É verdade Ysabel! Fizemos a nossa parte; vamos nos juntar a multidão no outro
lado da calçada e observar o povo que entra e sai…”, disse seu Ovídio.
        
“Vamos! Quero fotografar e depois comparar com a inauguração das Casas Bahia
que logo, logo, estará presente na cidade…”, falou Dona Ysabel.
Gastão Ferreira/2014
          

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