CHICO JUNIOR, O CEGUINHO…

         Na
antiga e bela cidade de Pindaíba do Norte vivia Chico Junior, um garoto muito
esperto e inteligente. Junior era um órfão, um bebe encontrado a margem de uma
estrada. Um único objeto fora deixado como herança por quem o abandonou, uma
singela cruz de pedra engastada numa corrente de prata. Foi criado no orfanato
“Doce Lembrança” e para ele o mundo era lindo, perfeito, maravilhoso, as
pessoas eram todas honestas, boas, sensíveis e humildes. Um pequeno detalhe
diferenciava Chiquinho do restante da molecada, ele era cego.
         Chico
Junior foi alfabetizado em braile e como todos sabem, os livros editados em
braile português são fraquinhos. Juninho aprendeu inglês, ou melhor, aprendeu a
ler inglês em braile. A dificuldade era saber o que ocorria ao seu redor, pois
os jornais da pequena cidade não eram editados em braile. O garoto curioso
pedia aos amiguinhos, não cegos, que lessem para ele os jornais da região.
         Que
maravilha! Milhares de pessoas participaram da “Festa de Maio” em louvor a Mãe
Natureza. Cem mil fulanos e fulanas estavam presentes no último “Revelando
Pindaíba”. O carnaval da cidade estava entre os maiores do planeta, as ruas
sempre limpas eram o orgulho dos munícipes, o atendimento hospitalar de
primeiro mundo. Pindaíba era tudo de bom! Os políticos de uma honestidade
ímpar, nada de escândalos, nada de propinas, nada de superfaturar obras, os
governantes eram tão amados pelo povo que recebiam apelidos carinhosos, “Mãos
Limpas”, “Todo Amor”, “Alcaide Maravilha”, “Mãezoninha”… Que desfrute morar
num lugar sem problemas!
         Toda a
noite antes de dormir Chiquinho agradecia do fundo de seu coraçãozinho ao
“Boncris” (Bom Cristo), o amado protetor da comarca e pedia perdão pelos
falsos, os mentirosos, os que levantavam aleivosias contra os mandantes da
cidade, os que mentiam dizendo que não nasciam mais Pindaibenses porque não
existia uma maternidade na urbe, pelos que inventavam que os mortos não tinham
um lugar para serem velados. Orava pelos que falseavam a verdade ao dizerem que
esperavam meses por uma consulta.
         Como
gostaria de enxergar, ver a beleza das praças centenárias com seus monumentos
antigos, as límpidas fontes cristalinas onde os estudantes vão ler a sombra das
árvores tão amigas, os passeios na orla do riacho com seu cimentado perfeito,
os casarões preservados em seu esplendor original. Como são felizes os
repórteres dos jornais! Andam por ruas limpas sem serem perturbados por pessoas
carentes, por drogados, por alcoólatras, por pedintes de informação de como sair
da cidade. Ah, esses jornalistas cheios de ética! São os olhos de Deus. São os
grandes formadores de opinião, os que traduzem para a plebe a grandeza do local
onde vivo… Obrigado meu “Boncris” por contarmos com a imparcialidade da
imprensa. Obrigado meu “Boncris”! Como eu gostaria de um dia ver com meus
próprios olhos tanta beleza e perfeição.
         Chico
escreveu para um programa de televisão contando sua história e falou de seu
grande sonho; – Ver o mundo através de seus próprios olhos… O país inteiro se
comoveu e Chiquinho foi para a cidade grande. Foi entrevistado, participou da
Ana Maria Braga, Jô Soares, Fantástico e Mãe Lucibeth Resolve seu Problema…
Resultado? Foi operado. Na verdade sua doença não era nada grave, catarata
congênita não diagnosticada pelos excelentes médicos de Pindaíba por falta de
aparelhagem.
         Chiquinho
esteve exposto na mídia por um longo período, ficou famoso. Recebeu muitas
cartas, presentes e ofertas de um futuro melhor através de bolsas de estudos
até para o exterior. Nada aceitou! A única coisa que realmente desejava era
voltar a sua adorada cidade e confirmar in loco o progresso, a beleza e a
realidade que cercava a cidade onde nascera.
         Henry
Stuart II não voltou à cidade! Henry Stuart II? Sim! Este era o verdadeiro nome
de Francisco Junior da Silva, o bebe abandonado à beira de uma estrada próxima
a Pindaíba do Norte. Seu pai, o mega investidor Henry Stuart I em visita com a
família ao Brasil sofrera um sequestro relâmpago e Henrizinho raptado para um
futuro resgate milionário jamais foi encontrado, pois os policiais mataram toda
a quadrilha sem fazerem perguntas e o único que escapou gravemente ferido
abandonou o recém-nascido num local desconhecido e distante, vindo a morrer de
hemorragia logos depois numa outra cidade.
         Como
Henry Stuart II foi reconhecido, perguntará o atento leitor? Foi reconhecido
pela pequena cruz de pedra, presa a corrente de prata. Um poderoso amuleto
ganho por seu pai quando visitou outra famosa cidade turística brasileira que
tinha como totem a tal cruz. Quando Chico Junior apareceu na mídia, sem querer
querendo, pois rico que é rico não assiste a qualquer programa bobinho de tevê,
seu pai reconheceu imediatamente o amuleto e disse; Oh God! My Kid! E veio
buscar seu pimpolho. Assim não ficamos sabendo o que Henry ou Chico Junior
diria sobre Pindaíba, fica no ar a dúvida; – Os jornais falavam a verdade? Eram
imparciais? Não sei!
Gastão Ferreira/2012
            

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