NUNCA MAIS

                Querida mamãe Noel. Espero que nosso amado Pombo
Correio tenha vencido a distancia que nos separa e entregue essa cartinha.
Minha boa velhinha! Neste momento estou numa cidade muito antiga, apelidada
pelos pacatos cidadãos de Pindaíba e foi ao me aproximar do lugarejo que tudo começou
a dar errado.
            Primeiramente tive de substituir as renas. Acostumadas ao
frio do pólo norte não suportaram o calor dos trópicos. Arranjei quatro
veadinhos catingueiros para puxarem o trenó ao qual adaptei duas rodas, pois
por aqui não cai neve. Esses veados são muito, muito sensíveis; Irritam-se
facilmente, fazem poses, empacam, dão vexame, se acham o último oásis do
deserto e não suportam criticas, adoram viver de elogios.
            Na entrada da cidade, devido a um buraco no asfalto, uma
das rodas quebrou. Alem de suportar o chilique dos veadinhos, meu trenó foi
saqueado e os melhores presentes desapareceram. Perdi os endereços de entrega. As
placas de transito são por demais confusas, fiz perguntas aos moradores locais
e não obtive resposta, aparentemente ninguém fala inglês por essas bandas.
            Fui multado diversas vezes, tanto por excesso de
velocidade quanto por trafegar na contramão. Não! Não estava a 120 km por hora
e sim a 40 km. Estou um trapo minha velhinha! Cortaram as árvores e não acho
uma sombra para fugir do calorão. Encontrei uma fonte, aliás, um lindo recanto
onde os veados mataram a sede. Alguma coisa estava errada com a água, o capim, o
ar… Sei lá! Os animais mostraram um comportamento muito estranho e começaram
a devorar toda e qualquer graminha, parece que é uma doença chamada larica.
            Um dos veadinhos, o Junior, deu o maior vexame. Não sei se
foi devido ao cheiro de mato queimado, típico do local ou de algo que comeu e
não gostou, Junior é muito manhoso! Deitou-se na grama e se fingiu de mortinho.
Alguns urubus se aproximaram para fazer a festa, o catinguento despertou e foi
à maior baixaria. Ainda bem que os fumetas e pedintes que acampam no jardim não
entenderam a linguagem do animal. Cada palavrão!
            Por falar em pedintes! Como têm por aqui. Exigem dinheiro
para comprarem pão, café, lanches,… Só não pedem para pinga! Ainda bem… O
interessante é que aparentemente só bebem água e vivem bêbados o tempo inteiro.
Os nativos endeusaram os bons jogadores de futebol, pois a todo o momento eu
ouço dizer que tem muito craque na cidade.
            Acho que o homem mais rico do município é um nobre, seu
nome é Conde Qualquer Coisa. Notei frente a diversos imóveis em ruínas placas
com os seguintes dizeres:-” Aguardando verba do Conde “… A urbe está
literalmente tombada, são muitos e muitos prédios caindo aos pedaços,
destelhados e cheios de mato ao redor.
            Estou deveras decepcionado, tanto as crianças como suas
mães se excedem nos palavrões em locais públicos, os adolescentes assaltam os
desavisados e xingam os mais velhos… Os mendigos vivem no centro da cidade,
cobram pedágio dos transeuntes e coitado de quem não tiver algum trocado, é
ofendido e não tem a quem reclamar.
            A concorrência por aqui é muito traiçoeira, ouvi dizer
que tem nove indivíduos se passando pelo Papai Noel e que deram um presentão
para algumas pessoas, o presente é retroativo ao ano de 2005 e quem vai pagar é
o povo… Rsrsrs… Não falei! Concorrência desleal.
            Espero retornar ao lar antes do fim do ano, estou
acertando os impostos ou meu trenó será penhorado… Os presentes foram
confiscados na cara dura e estão de olho nos veadinhos para futuro churrasco ou
coisas piores. Mamãe Noel! A situação é calamitosa. Todos estão cientes do
aperto que passo e ninguém me ajuda. A população tem medo de exercer a
cidadania, qualquer crítica é tida como ofensa. Quem não beija a mão que
estapeia é considerado um inimigo… Coisas da Idade Média! Parece que o povão
gosta, pois não ouvi reclamações. Vou riscar essa cidade do meu roteiro
anual… Pindaíba! Nunca mais.
            Um abraço de seu marido… Noel.
Gastão Ferreira/2010
Obs. – Esta crônica não
serve de carapuça a ninguém… É óbvio que o texto é ficção e nada tem a ver
com nossa realidade, qualquer semelhança é mera coincidência. Feliz Ano Novo
aos nossos leitores.

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