AS CARAS & AS VELAS

         “O mundo
é dos espertos”, dizia um velho deitado em berço esplêndido, “ao som do mar
profundo nunca raiou a liberdade!”. Quando a Freguesia se preparava para
conhecer o Imperador, no meio do caminho, Sua Majestade descolou uma favorita, nome
bonito para Amante do Rei e desistiu da viagem. Na Paróquia das Neves, num
lugar em que jamais nevou chegaram os almotacéis, os alferes, os fiscais do
rei. A riqueza fugia de navio, em lombos de burros, na esperteza dos nobres. A
plebe aplaudia o refinamento dos larápios soltando rojões…
         O tempo
passou, o imperador abdicou e foi morar na Europa em um luxuoso palácio como
convém a alguém de sangue azul. Os pobres, em seus casebres, pediam a Deus pela
saúde do bom rei que jamais lhes dirigira um olhar… Agora são outros
quinhentos, chegou a Democracia, finalmente o povo no poder.
         A cada
quatro anos os Piratas saqueavam a cidade. Os novos flibusteiros não vinham de
navio, eram filhos do próprio lugarejo que faziam mil promessas engambelando a
antiga plebe vil, atualmente chamados eleitores. Os corsários atraiam com juras
de honestidade os humildes cidadãos que através de um voto de confiança lhes
conferia o mando. Dividiram a população em facções que se digladiavam entre si
enquanto o bando enriquecia sorrateiramente. Os piratas tiveram muitos
apelidos, Bernes, Tamanduás, Formigas, Bicho do Mato, Bicho sem Mato, Bicho com
Nome, Bicho sem Nome… Apesar do nome diferenciado, a proposta secreta era
sempre a mesma, tirar proveito próprio e impedir o progresso. Tanto isso é
verdade que alguns chefes corsários perderam o posto devido à deslavada roubalheiras,
jamais abandonaram a pose de salvadores da pátria, mas isso é outra história.
         Os
piratas nunca aplicaram no município o produto dos diversos saques. Com o ouro
roubado compravam fazendas, apartamentos, pontos comerciais na capital, mansões
em outras cidades. Na urbe rapinada tudo era superfaturado, o atendimento
médico deixava a desejar, obras caríssimas que rachavam antes da inauguração,
simples lixeiras valiam o preço de uma geladeira, a pintura de um prédio antigo
custava o valor de um prédio novo.
         Na
cidade que adora ser saqueada questionar é crime. Quem ousa duvidar da lhaneza
dos mandatários é visto como alguém a ser execrado publicamente… Em tempos
idos seu destino seria o pelourinho. Os governantes têm seus capangas, seus
capachos, seus paus-mandados que estão sempre apostos e prontos a denegrir, a
ofender, a humilhar quem discordar dos podres poderes. As caras são todas
conhecidas, suas histórias pessoais estão na boca do povo, nas paginas dos
jornais, nos Boletins de Ocorrências, nos tribunais, nas obras realizadas…
         O
município em expectativa aguarda a eleição de um novo mandatário… Será novamente
um pirata? Será o salvador tão esperado? Não sabemos. Nenhum barco corsário foi
avistado nas cercanias. A população, como sempre dividida, procura tirar
proveito pedindo favores em troca de um voto. Esta pratica de escambo é
considerada a causa de todos os males e as tentativas de erradicá-la sempre
falharam. Os cidadãos esclarecidos preocupam-se com o futuro… Caravelas
carregadas de foguetes e presentes navegam em alto mar, quem sabe a caminho de
outro país ou não!… As caras & as velas mostram a realidade que nos
cerca, quem sobreviver verá!
Gastão Ferreira/2012 
          

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